Um conceito de literatura e alguns exemplos

sexta-feira, janeiro 04, 2013 Jussara Neves Rezende 18 Comments



 
Literatura é linguagem carregada de significados. 
Grande literatura é, simplesmente, linguagem carregada de significados 
até o último grau possível.
                                                                                                                                          (Ezra Pound)



Já perguntaram mais de uma vez minhas impressões sobre o livro Cinquenta tons de cinza, de Erika L. James (Ed. Intrínseca), mas ainda não o li, nem sei se chegarei a ler. Tenho certa má vontade com best-sellers: são expostos em pilhas enormes na entrada das grandes livrarias como se o único motivo de você ali entrar fosse para adquiri-los, ou como se dissessem que você não deve sair sem levar um deles. Às vezes – surpresa – o livro é bom, mas geralmente decepcionam pela linguagem pobre e pouco literária.





Sorte do autor que cai tão rapidamente no agrado público e garante a venda de milhares de exemplares e a de seus direitos para o cinema, ainda que isso não seja garantia de qualidade.

Não estou a dizer mal de um livro que não li; apenas explico a má vontade que sinto em relação aos queridinhos dos livreiros e das pessoas que buscam apenas entretenimento na leitura. Ah, sim, eu sempre busco mais que isso e vou tentar explicar rapidamente o quê. A leitura dos best-sellers costumo deixar para tempos depois de seu boom, momento em que posso lê-los por mim mesma, sem interferência de nenhuma mídia. Quanto ao Cinquenta tons de cinza só posso dizer que li alguns fragmentos na Internet e que achei que nada distancia a linguagem utilizada pela autora daquela que todos usamos diariamente para nos comunicarmos; não se trata de linguagem elaborada, organizada de forma a fugir do comum e se tornar arte. É linguagem rotineira, comum, tristemente pobre:

Vê-lo ajoelhado na minha frente, sentir sua boca em mim é algo muito inesperado e sensual. Mantenho as mãos em seu cabelo, puxando-o delicadamente ao tentar aquietar minha respiração bastante ruidosa. Ele ergue os olhos para mim através de cílios longuíssimos, o olhar ardente turvo. Então, desabotoa minha calça jeans, puxa sem pressa o zíper. Sem tirar os olhos de mim, passa as mãos por baixo do cós, roçando de leve minha pele e alcançando minha bunda (...). Ainda ajoelhado segura meu pé e desamarra meu All Star, tirando o tênis e a meia. Me apoio nos cotovelos para ver o que ele está fazendo. Estou arfando... de desejo.
Christian levanta o meu calcanhar e corre o polegar pela sola do meu pé. Quase chega a doer, mas sinto o eco do movimento nas minhas entranhas. Suspiro. Sem desviar os olhos dos meus, ele passa a língua, depois os dentes, pela sola do meu pé. Merda. Gemo... como posso sentir isso ali? Torno a me deitar, gemendo. Ouço sua risadinha.
– Ah, Ana, o que faço com você? – sussurra.


Nada tenho contra calças jeans, nem contra os All Star, mas seria mesmo necessário referi-los? Saber que se despiram, olhando-se nos olhos, e que palmilharam os caminhos dos corpos um do outro não seria mais sugestivo, entregando ao leitor a responsabilidade de fantasiar esses caminhos e garantindo espaço para reflexões maiores sobre o desejo? Obviamente não era essa a preocupação da autora que detalha a intimidade do casal com palavras do dia a dia, em nada elaboradas, como se seu objetivo fosse o de dar uma aula sobre como se relacionar sexualmente. Pelo sucesso de vendas está claro que o objetivo foi alcançado, o que também se evidencia em certos comentários acerca do livro que se encontram em sites “literários”: “Este livro é ótimo, revolucionou minha vida sexual!”.
Ora, que bom se a vida sexual da leitora melhorou após a leitura, mas esse não é, absolutamente, o objetivo da literatura. Todas as artes têm seus instrumentos: o som, o movimento, a cor, a linha (reta ou curva), etc.... No caso da literatura o instrumento é a linguagem que, utilizada a todo o instante sem nenhuma intenção artística – para comprar batatas, por exemplo – precisa se organizar de um modo especial a fim de, distanciada do linguajar comum, se tornar arte.
Veja o que diz Cecília Meireles neste breve poema:

Epigrama nº8
Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino, frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí.

 Ao utilizar símbolos de transitoriedade (“onda” e “nuvem”) para se referir à pessoa amada pelo eu-lírico, a poetisa sugere a inconstância e a volubilidade desse alguém. A impossibilidade de chorar ao cair, por outro lado, advém do conhecimento que detinha (“sabendo”, “sabendo bem”, “sabia bem”) a respeito da instabilidade do destino que teria ao lado de tal pessoa. A queda, entretanto, é tão metafórica quanto o fato de o amado ser nuvem ou onda. A criança cai na rua e chora; o eu-lírico cai das nuvens ou das ondas e não pode chorar porque optou por ali estar (“dei-me ao teu destino frágil”).
A frustrada história de amor contida nos versos de Cecília pode até ser corriqueira, pois todos conhecemos um ou outro caso parecido. As palavras usadas pela escritora também são palavras comuns, que usamos diariamente para dizer que tal praia tem ondas enormes, ou que as nuvens estão encobrindo o sol. O uso, entretanto, que a poetisa faz desse tema e dessas palavras comuns, é totalmente inusitado, incomum – é arte! Podemos dizer que um homem é instável, mulherengo, mas dificilmente diríamos a alguém para não se envolver “com aquele nuvem”.




O que distancia, portanto, um texto literário ruim de um bom texto literário é justamente a possibilidade do inusitado. Quanto mais o autor detalha e explica, menos literário é o texto; quanto menos ele diz, quanto mais sugere, mais literário ou mais artístico ele é.
Eu também gosto de ler por puro entretenimento, mas é geralmente esse vazio do texto, esse não dito, esse apenas sugerido que eu procuro nos livros que leio.


  Comente, comente, comente... vou amar!


Beijo&Carinho,


Jussara









18 comentários:

  1. Jussara:
    Seu post foi brilhante.
    Concordo com você.
    Também não costumo comprar livros que são considerados best sellers.
    Nada contra esse tipo de literatura, mas prefiro algo que mexa com o imaginário, instigue o pensamento e as sensações que as palavras podem produzir na mente humana.
    Sou apaixonada por livros, aliás sou uma consumidora compulsiva pela leitura.
    Daquele tipo, que não passa um dia sem ler pelo menos uma página de um livro.
    Então, sou suspeita pra fazer comentários a esse respeito (rsrsrsrs).
    Mas gostei demais deste seu post.
    E por esse motivo, vou indicar seu blog lá no meu, ok.
    Se quiser conferir, deixo meu link:
    http://meusdevaneiosescritos.blogspot.com.br/
    Bjs.:
    Sil

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  2. Oi, Ju,

    Você disse tudo o que penso sobre este tipo de livro, rsrs. Também não li os "50 tons" e não tenho preconceito contra best- sellers; até concordo que um livro desses possa vir um dia a tornar-se clássico, sei lá, na vida tudo é possível, não é verdade? rsrs. Porém. acho que de modo geral eles são livros dispensáveis e tomam do leitor o tempo que poderia ser usado na leitura de uma obra realmente significativa.
    Tenho me surpreendido com a quantidade de mulheres que têm dito que este livro
    "revolucionou" a vida sexual delas. Não pelo livro propriamente, mas pela constatação de que há muita gente sem imaginação neste mundo, rsrs.

    Um beijo e bom fim de semana!

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  3. Eu ainda não li nenhum dos 50 Tons, e confesso que perdi a curiosidade de tanto que se fala por aí. É o assunto preferido da mulherada... hahaha!
    Mesmo me sentindo um tanto 'fora do aquário', pretendo ler bem depois tb. Um dia, talvez...
    Bjns
    :)

    Feliz Ano Novooooooo!

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  4. Também não li e não fiquei curiosa...Ainda acho que nada supera a imaginação, despertada através de palavras. Ler um relatório não me anima,rsrs...
    Parabéns pelo comentário!
    Bjs,Ana

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  5. Olá Jussara

    Ontem, por acaso vi um pequeno trailler do filme. Achei ótimo vc comentar sobre o all star, e eu senti o mesmo no livro, não combina. A minha leitura continua parada. Quando terminar, te darei um retorno também. Obrigada pr fazer o post.
    Um ótimo sábado para vc...

    AMIGA da MODA by Kinha

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  6. oi Jussara.. não li tb esse tal livro dos tons de cinza nem pretendo. perco totalmente o interesse quando algo caí assim na graça do povo..significa que não é bom.. infelizmente essa é a verdade, quem gosta de literatura como vc logo percebe que se está muito " falado" por aí é porque é apenas mais um livro...adorei o post.
    beijos
    http://meuemagrecimentoreal.blogspot.com.br
    @Denniblog

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  7. Olá, querida, "topei" com seu blog por acaso e me surpreendi, gostei do que li aqui. Tb tenho má vontade com esses furacões fabricados pela mídia. Porque na maioria das vezes vendem muito, mas pecam pela novidade. Ainda não li esses tais 50 tons, e creio que não lerei pois não tenho paciência por ser como todo mundo, por falar que é bom, ótimo, maravilhoso, só pq está todo mundo achando. Ah, tá bom, é uma história de sexo e sadomasoquismo, será que por isso atraiu o público (não os leitores, penso eu)? Penso que na maioria dos casos as pessoas são hipócritas. Chegaram a comparar com crepúsculo, só que com sexo. A autora da saga dos vampiros até prende um pouco, bem pouco, mas alguns trechos que li na net sobre esses 50 tons, me poupe, com certeza há outros livros melhores por aí esperando para serem lidos.
    grande abraço
    Renata

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  8. OI, FIONA! (FIONA DE FIA GRANDE, NÃO É A DO SHERECK, TÁ? ;))
    OLHA EU AQUI. ME DESCULPE PELA AUSÊNCIA. "FAZER BICOS" TIRA UM POUCO DO TEMPO DA GENTE, MAS SEMPRE QUE POSSO, DOU UMA CHEGADINHA AQUI.
    CONCORDO COM VOCÊ QUANTO AOS LIVROS MAIS VENDIDOS. MUITAS VEZES, NEM CONTEÚDO TEM. GOSTO DE LIVROS QUE PRENDAM ATENÇÃO, QUE ME CONTAGIEM COM A HISTÓRIA. AQUELES QUE A GENTE "ANDA, ANDA E NÃO SAI DO LUGAR", COMEÇO E NUNCA TERMINA E UMA COISA EM PARTICULAR QUE ADORO SÃO AS ILUSTRAÇÕES. ELAS ME AJUDAM A VIVENCIAR AS SITUAÇÕES ATRAVÉS DAS IMAGENS. TRAZEM INSPIRAÇÃO E AGUÇAM MINHA IMAGINAÇÃO, DAÍ A "SOPA" FICA BOA! ;) KKK
    OBRIGADA POR VISITAR MEU CANTINHO NOVO E BOA SORTE NO SORTEIO, TÁ? CÊ FAZ PARTE DO GRUPO DE PARTICIPANTE, Ô SE FAZ, UAI!!!
    TE DESEJO UM ANO NOVO CHEIO DE SAÚDE, PAZ E REALIZAÇÕES.
    QUE POSSAMOS CONTINUAR NESSE COLEGUISMO VIRTUAL TÃO ESPECIAL.
    ABRAÇÃO PROCÊ E INTÉ MAIS VÊ, MOÇA! ;)

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  9. Também não li o livro e não gostei rsrsrsrs... Já bastam os comentários que vi por aí, totalmente suficientes para desestimular a leitura. Vi num blog, a partir de um post no Facebook, um comentário hilário sobre o livro, "destrinchando" toda a ruindade dele (lastimavelmente, perdi o link).
    Legal seu blog!

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  10. Olá Jussara!! Nunca tinha visto sobre esse ângulo os textos literários..também não li o livro, nem tenho vontade, quem sabe adiante..belo post para reflexão. Abraços. Sandra

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  11. Ju, quanto ao livro "Cinquenta Tons de Cinza" concordo com você: é leitura, mas literatura jamais. Mesmo a leitura se divide entre útil e prazerosa, essa faz parte do segundo grupo, mas daí a mudar a vida de alguém, só se fosse uma vida bemmm ruimzinha...rsrs
    Também não gosto das letrinhas pedidas nos comentários, mas estou recebendo muitos spams que fico apagando diariamente. Como vou viajar e ficar afastada por uns dias, achei melhor incluí-las só por um tempinho.

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  12. Jussara,

    Como eu disse no seu último post, a resenha crítica é uma via de única mão. Aqui você foi obrigada a usar a outra. Sendo assim, você foi muito feliz ao colocar como epígrafe Ezra Pound (aliás, "feliz" aqui é um "eufemismo em ação", como bem diria nosso Machado de Assis. Rsrs...). Cecília, e nem precisava, foi seu magnífico "touche".

    De fato, pelo trecho apresentado, temos uma "literatura" erótica barata. Já li coisa extremamente melhor quando era adolescente, e lia tudo o que caia em minhas mãos.


    Abraço meu,

    Roberto.

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  13. Oi Jussara,
    Taí um livro que não li e não gostei. Desconfio muito dos livros que tem continuidade, pois qdo agem assim, com certeza é um caça-niqueis.
    Ontem fui a uma livraria e fiquei espantada com a quantidade de livros com o mesmo tema e com capas parecidas, com o intuito nada sutil de vender cada vez mais antes que a onda passe.
    Beijos 1000 e uma ótima semana para vc.

    GOSTO DISTO!

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  14. Passei para retribuir sua visita e por uma feliz coincidência estamos falando sobre o mesmo assunto 50 tons... se lhe interessar deu minha opinião pessoal em meu blog e o comparei com outro sucesso de vendas.
    Também adoro ler e leio de tudo, mas sou assim como você reticente com aquilo que é muito aclamado pela mídia logo no lançamento.

    Adorei a forma como você comparou (bem melhor do que eu...rsrs) este estilo de leitura.

    Muita Luz e Paz
    Abraços

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  15. Boa tarde Jussara!!!
    Menina quanta explicação sobre as diferenças de livros...Confesso que aprendi muito. Estou lendo ese livro sim, mas como é online tenho preguiça de continuar prefiro ler no próprio livro, sentir o perfume das folhas...viajar na imaginação sentadinha em um canto bem gostoso. No not, me tira a concentração.
    E qto ao seu comentário, nada de chorar pelo leite derramado, concordo plenamente. Porém o título do livro não leva bem para esse lado, bom pelo menos tive outra interpretação...se um dia resolver ler me fale o que achou. E anime-se a vida é um presente que Deus te deu. Então seja sempre FELIZ!!! Tenha um 2013 repleto de realizações e bençãos...
    Bjokas...da Bia!!!

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  16. Não li e não sei se lerei algum dia. Mas quero registrar que o seu post foi uma verdadeira aula de literatura para mim. Vou acompanhar o seu blog. Abraços

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  17. Olá Jussara

    Continuo na maema, sem vontade de continuar a leitura, mas me prometi ler até o final.
    Boa 3º feira

    AMIGA da MODA by Kinha

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  18. Adorei o texto, tanto que postei o último parágrafo no meu Facebook, com os devidos créditos, é claro,
    Parabéns, Jussara. Abraço.
    P.S: Também tenho um blog: ascoisasquechamodeminhas.blogspot.com.br

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Obrigada pela visita e pelo comentário :)
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