Uma poética de alumbramento

Uma poética de alumbramento
Li de um só fôlego o Cais de Cítara, de Daniela Damaris. Li como se ouvisse música, embalada pelo ritmo dos versos, pela sonoridade construída com tanta habilidade que não se revela como construção, antes faz supor ter nascido naturalmente, como água, como brisa. Li sem prestar atenção ao conteúdo dos versos – a boa poesia tem esse efeito sobre mim: conquista-me pelos sentidos, pela musicalidade, pela delicadeza das rimas, das aliterações; pela disposição dos versos no branco da folha como desenhos mágicos. Ao final da leitura estava em suspenso, fora do mundo, em puro êxtase; há tempos não experimentava esse prazer que só a verdadeira poesia proporciona – aquela que é viva justamente por dialogar com os sentidos, com as entranhas do ser que somos, e que nasce eterna por isso mesmo: porque conversa com a nossa humanidade sedenta de beleza que mudança alguma no mundo consegue saciar.
Precisei respirar fundo antes de começar a ler de novo, desta vez com um respeito quase religioso, em busca agora do sentido, das imagens, dos temas, de todo o conteúdo que eu abstraíra em deslumbramento. Então ouvi Daniela falar de manhãs e aromas, de matizes e soslaios, de ouro e azul, seda e veludo, “plissados de nuvens” e “debruns de soutache”, numa imagética tão rica e tão elaborada e ao mesmo tempo de uma singeleza e simplicidade ímpares.
Impressionante é que a artista que manipula com tal maestria os versos é praticamente uma menina. Posso dizer isso, pois ela tem apenas 26 anos, a idade do meu filho. Mas como sabiamente observou Paulo Roberto do Carmo, que prefaciou a obra,
A poesia não se improvisa. É obra do tempo e do coração. Algumas pessoas já nascem com ela. E revelam que há outras realidades possíveis. E só vale quando causa estremecimento.
Daniela Damaris
Daniela por certo já nasceu com a poesia e é uma poesia tão viva e válida que realmente faz estremecer.
Para não tirar dos futuros leitores de Daniela o prazer das próprias descobertas, compartilharei apenas um poema, sem mais comentários, tão perfeito ele é:
lilases
em asas lilases
nos ares dos dias
eu bordo as horas
em fios de cetim
matizes de rimas
enfeitam os versos
e rendas de nácar
te guardam canção
em asas lilases
desvendo os espaços
com mãos de poema
e olhos florais
me perco em veredas
de vales castanhos
lilases da alma
em marfim e neon
Daniela Damaris vive em Porto Alegre-RS onde é mestranda em Teoria da Literatura na PUCRS; é professora, revisora de textos e participante ativa em saraus e outros eventos literários. Lançou-se com escritora com Lótus (2010), outro livro de poesia. Cais de Cítara é de 2011, publicação da Editora Pradense, de Porto Alegre.
Se quiser entrar em contato com a autora, acesse o link.
 
Abraço!
Comente, comente, comente… vou amar!

 


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