Cem sonetos de amor, de Pablo Neruda – impressões

Cem sonetos de amor, de Pablo Neruda – impressões

 

NERUDA, Pablo. Cem sonetos de amor. Tradução de Carlos Nejar. Porto Alegre: L&PM, 2017, 122p.*

 

Um leitor aqui do blog sugeriu que eu acrescentasse às minhas leituras de outono o livro de Pablo Neruda – Cem sonetos de amor. Respondi a ele que eu o tinha em algum lugar e que deveria, sim, relê-lo para aproveitar a vibe outonal. Não o encontrei, entretanto, e só fui achá-lo depois de ter comprado um outro exemplar idêntico: estava entre as leituras de minha mãe.

 

 

Tinha razão o amigo leitor que indicou Neruda para a pilha dos meus livros de outono. Dividida em quatro partes, que acompanham o transcorrer do dia – “Manhã”, “Meio-dia”, “Tarde” e “Noite”, Cem sonetos de amor, obra publicada em 1959, é magistral a partir dessa montagem que agrega poemas pela intensidade dos sentidos que evocam a depender do momento do dia que focalizam. Assim, das metáforas utilizadas para compor a manhã depreendem-se claridade e frescor, bem como calor e odores intensos são empregados a fim de caracterizar o meio-dia.

O Poeta, que no filme “O carteiro e o poeta” aconselha o carteiro a buscar as melhores metáforas, se realmente deseja poetar, faz belíssimas construções poéticas ao compor metáforas a partir de elementos da natureza: água, pássaro, pedra, trigo, lua, espuma, folhagens, ilhas, estações… Tais imagens são usadas para descrever sua companheira Mathilde (Urrutia) e seu amor por ela.

O corpo de Mathilde é fogo, terra, água, ar – elementos básicos, constituintes da matéria, segundo os filósofos pré-socráticos, e referência em inúmeras obras de expressão plástica e literária. Encontrar e conhecer esse corpo, portanto, é irmanar-se à natureza bruta que o cerca, ao passo que cercar-se dos elementos da natureza confunde-se com o amor que dedica à Mathilde.

A primeira parte da obra, “Manhã”, parece dedicar-se a cantar a descoberta do amor, o encontro desse sentimento que a solidão elide, enquanto “Meio-dia” e “Tarde” cantam os matizes desse amor, reservando para a “Noite” as reflexões sobre a finitude do corpo, embora o sentimento amoroso, associado ao canto poético e à vida da amada, continue além da vida do Poeta.

Pablo Neruda (1904-1973) – nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reys Basoalto, em Parral, no Chile, é uma das vozes mais altas da literatura mundial. Eu poderia falar de seu engajamento às causas sociais, de sua participação na política, de seus outros e variados temas, sua projeção internacional e sua consagração definitiva com o Nobel de Literatura, em 1971. Entretanto, esses Cem sonetos de amor são de tal beleza e perfeição que exigem de uma leitora apaixonada por poesia, como eu, uma total entrega e admiração.

Para além da perfeição formal, o trabalho poético de construção de imagens a partir das luxuriantes metáforas, que se encontram nessa declaração de amor feita em versos, é grandioso.

No quadro poético contemporâneo – se é que realmente o podemos denominar assim – que contempla poemas que não são verdadeiramente poemas, mas prosa fragmentada em versos, ler poesia de verdade arrepia a pele, funciona como um soco no estômago, um tapa na cara, um acordar para a beleza que, sim, apesar da conjuntura social-político-econômica em que estamos inseridos, ainda é capaz de nos encontrar.

Eu poderia, ainda, escolher um ou dois poemas para comentar, mas ainda sob o efeito “tapa na cara”, provocado por esses cem sonetos indefectíveis, lembro-me do que disse Sophia de Mello, poetisa portuguesa, sobre a nossa vã tentativa de comentar um poeta e sua poesia: É “como querer apanhar água com as mãos”, diz Sophia, “prendemos só as nossas próprias palavras, enquanto o poeta nos foge. Só em poesia se pode falar de poesia”.

Reúno, portanto, aqui, alguns dos sonetos de que mais gostei no livro e compartilho com você para que a poesia fale por si. Lembre-se, ao lê-los, de retirar o chapéu, de se aquietar como quem ora: “ouça” o verso… Leia em voz alta, se possível… Deixe a poesia arrepiar a sua pele e impregnar seu ser. Você está diante de alguns dos mais belos sonetos de toda a história da literatura. Numa época em que o conceito de poesia parece tão perdido, você está diante de poesia de verdade. Respire esse ar!

 

 

 

 

 

 

 

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Beijo&Carinho,

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