Ler não é opcional. Escrever também não é.

Ler não é opcional. Escrever também não é.

Ler e escrever não são opções na vida, como se fosse possível decidir não ler coisa nenhuma (ah, eu não gosto de ler!), nem escrever nada (porque não preciso, etc.) e, ainda assim, obter tanto sucesso quanto aqueles que leem e escrevem diariamente.

Ler e escrever são atividades essenciais que, na grande peneira da vida, separam os bons dos maus profissionais, definem os que serão contratados e, em momentos de crise e cortes nas empresas, marcam aqueles que conseguirão manter suas vagas.

Ainda que você seja um profissional que trabalha com números, atividade física, beleza, saúde, agricultura ou qualquer outra atividade que – você acredita – o dispensa de ler e escrever diariamente, você está enganado. A internet está aí para provar o que eu digo: todos escrevem, embora nem todos escrevam bem. Apesar dessa maravilha tecnológica ter encurtado distâncias e facilitado os contatos interpessoais, possibilitou que pessoas que pensam que leem e escrevem, se tornassem autoras e editoras de textos que, apesar de pessimamente escritos, inundam os espaços virtuais.

Ao mencionar tais espaços virtuais, não pretendo indicar apenas as redes sociais e ferramentas de comunicação rápida, como o WhatsApp, muito embora seja nelas que os maiores absurdos gramaticais são perpetrados. Refiro-me, também, às revistas e jornais de renome, que na ânsia de partilharem com rapidez as notícias, em suas edições online, dispensam um revisor e criam manchetes e artigos onde erros não são raros.

A situação é grave e se torna ainda mais séria quando envolve profissionais que trabalham com a educação e que, apesar de cursarem uma graduação, ou de já a possuírem, chegaram até aí sem conseguirem interpretar textos, nem apresentá-los, por escrito, de forma coesa e coerente. Ora, se ninguém pode dar o que não tem, como esperar que esses profissionais, que mal conseguem se expressar, consigam ensinar às crianças e jovens o que quer que seja, se eles mesmos têm um vocabulário reduzido, uma visão míope da vida, da política e da sociedade, e uma cultura pífia baseada em memes da internet?

Não se engane. Existem pessoas que venceram na vida sem se dedicar à escrita e leitura, mas são extremamente raras e em muitos casos seu status quo é extremamente questionável. A grande maioria dos comuns mortais precisa provar que é bom a fim de ir galgando seu caminho em direção ao sucesso.  Essa prova de excelência não se dá apenas através de uma aprovação em concurso público, como você pode estar pensando, mas se realiza no dia a dia através de sua fala no trabalho, em um relatório ou memorando que redige e que – pasme – entregam, de bandeja, sem que você se dê conta disso, suas qualidades e/ou defeitos aos seus superiores.

Mais uma vez, não se iluda: todo patrão quer funcionários que se expressem bem, que entendam as circunstâncias com as quais estão envolvidos, possam debater com eficiência sobre elas e interagir de modo a modificar para melhor uma situação de trabalho e, em certa medida, o mundo que nos cerca.

O que a leitura e a escrita tem com isso? Tudo. Por mais que seja um lugar comum dizer que a leitura amplia os horizontes ao colocar o leitor em contato com as melhores mentes de todos os lugares e tempos, isso é verdade. Na impossibilidade de estar em todos os lugares do mundo e em todas as épocas, a fim de garantir um conhecimento demiúrgico da vida e do mundo, através da leitura é possível acumular certa bagagem cultural que fará diferença em sua vida profissional e em suas relações pessoais e sociais, além de, aos poucos, melhorar seu vocabulário e seu uso da gramática a partir do contato com autores que fazem bom uso da língua que usamos para nos comunicar.

Esse significativo crescimento cultural, advindo da leitura, tende a se manifestar não apenas em sua linguagem oral, mas, também, nos textos que a vida exige que você escreva. Para que seja mais rápida e eficaz, entretanto, essa melhoria em sua redação, o ideal é que você se obrigue – como um exercício necessário para a vida, assim como se fosse um aula de musculação para aqueles adeptos do treinamento físico – ao exercício diário da escrita: um ou dois parágrafos, ao menos, que resuma(m) seu dia, ou que sintetizem um artigo de jornal que você leu, ou um capítulo.

Isso não é, repito, uma escolha que você pode ou não fazer; é uma obrigação e uma necessidade pessoal e profissional, a ser realizada para o resto de sua vida, independentemente de qual seja a área de sua formação. Isso, é claro, se você realmente quer ser um profissional de sucesso e se livrar do mar de mediocridade no qual a maioria se afoga.

Nesta altura, você certamente estará se perguntando e me perguntará na primeira oportunidade: “Mas o que eu faço, se não gosto de ler?”. E eu responderei: “Não acredito em quem diz que não gosta de ler, porque não acredito que seja possível não gostar disso”. A leitura é extremamente prazerosa para todos que descobrem o tipo de leitura de que gostam. Se você acha que não gosta de ler é porque, certamente, ainda não descobriu o tipo de leitura ideal para você. Ninguém é obrigado a ler romances históricos se gosta de literatura policial. Ninguém é obrigado a ler literatura se gosta da leitura de artigos sobre política ou futebol. Apenas descubra o seu nicho e comece a ler o quanto antes e a escrever pequenos resumos – diários – dos textos lidos.

Garanto que em um ano você terá melhorado seu vocabulário e estará fazendo melhor uso da gramática, o que o terá levado a se expressar melhor também oralmente, além de ampliar suas possibilidades de diálogo no trabalho e na vida pessoal.

Há péssimos poemas circulando pela internet, há frases escritas com erros nos quadros das salas de aula, há relatórios incoerentes e dissertações de mestrado mal escritas e mal pontuadas, ainda que as pesquisas a que se referem sejam verdadeiramente interessantes. Que não sejam essas as suas frases.

Não se engane ao achar que seu diploma lhe abrirá todas as portas. Todos os semestres as universidades lançam filas de novos desempregados no mercado. Nenhuma faculdade do mundo lhe dará aquilo que você precisa desenvolver por si mesmo. O máximo que as melhores universidades fazem é indicar os caminhos, mas é você e somente você quem deverá trilhá-los.

Ainda que possa não parecer, escrevo este texto com o maior carinho. Meu desejo é que você faça a diferença. Eu me sentirei honrada, ao aplaudi-lo(a), se souber que meu texto, um dia – lido e devidamente compreendido – o(a) instigou a ir além.

 

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A pintura que aparece em destaque neste post é  de autoria de Anita KLein. No destaque eu a usei na horizontal, mas seu sentido original é vertical:

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Novos óculos de leitura, acrílico sobre papel

 

A leitura não é a única temática da pintora, mas encontrei estas outras duas telas e não resisti à tentação de trazê-las, também, para este post:

 

Leitura na cama, acrílico sobre tela

 

Lendo para Betty, acrílico sobre tela

 

Anita Klein é uma premiada pintora figurativa britânica. Suas obras, segundo John Russell Taylor, são extremamente simples, embora isso não signifique dizer que não têm sutileza e ambiguidade. Ao contrário, “elas têm o tipo de franqueza inconsciente que vem de viver e respirar arte por tanto tempo a ponto de isso se tornar uma segunda natureza”.

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Via

 

 

 

Beijo&Carinho,

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7 thoughts on “Ler não é opcional. Escrever também não é.”

  • Oi Jussara que post pertinente! Esses dias mesmo este assunto foi tema de uma conversa entre amigos. Ninguém mais lê ninguém sabe escrever. Tá certo escrever não é fácil mesmo. Descobri no caminho até aqui que a intenção muitas vezes é maior que a capacidade de expressão e de organização daquilo que desejo criar. O aprendizado é lento. Por isso, não sei afirmar e dizer em que ano comecei a escrever mais insistentemente, mas tenho certeza que antes de começar a escrever eu aprendi a gostar de ler. E você tem toda razão quando afirma que ajuda no trabalho. Devo confessar que foi a capacidade de escrever que me salvou quando estava completamente desesperada precisando encontrar uma saída, uma porta aberta e arrumar trabalho. Saudades de passar aqui e ler suas reflexões e experiências. Bj grande

    • Muito antes, também, de começar a escrever, já era apaixonada pela leitura. Uma coisa puxou a outra, acredito. Este blog foi criado justamente como um exercício de escrita… e como passei a escrever melhor depois disso! O hábito faz o monge, diz o ditado. Com a escrita não é diferente. Obrigada, Yvone, pela visita e pelo carinho. Abraço!

  • Oi, Ju,
    Sim, realmente não se pode viver sem ler e escrever, especialmente nesse tempo de Internet em que somos diariamente desafiados a interpretar múltiplos textos e escrever sobre eles.
    E é verdade também que a Internet nos fez conhecer o tamanho do problema educacional do Brasil, que se revelou muito mais sério do que eu pessoalmente imaginava. O que quero dizer é que eu sabia que o brasileiro médio não é de ler e, por isso mesmo, não é lá muito capaz de – frente a um texto – de fugir (pelo menos um pouco), da literalidade para encontrar significados não declarados, de fazer abstrações, associações etc.
    Achei interessante também perceber como uma leitura qualquer nos remete sempre à nossa própria experiência e ao nosso conhecimento de outros textos, o que significa que quem não leu outros textos necessariamente fará uma interpretação mais pobre do que lê.
    E é claro que as leituras que fizermos sempre acrescentará algo ao nosso próprio conhecimento, ainda que seja no sentido de discordarmos do ponto de vista do autor e reafirmarmos os nossos próprios.

    Um beijo

    • Beijo, Marly! Estava com saudades dos seus comentários, sempre muito profundos. Tenho trabalhado muito na orientação daquilo que você comenta tão bem, de “uma leitura qualquer” nos remeter sempre “à nossa própria experiência e ao nosso conhecimento de outros textos, o que significa que quem não leu outros textos necessariamente fará uma interpretação mais pobre do que lê”Acho a intertextualidade apaixonante e embora já tenha falado alguma coisa sobre ela aqui, em breve pretendo falar de novo. Até depois!

  • Concordo plenamente com você, Jussara!! Eu gosto muito de ler e também de escrever. E sei que tanto ler quanto escrever precisam muitas vezes de gostar, criar hábitos, desde pequenos.
    Escrever não é mesmo fácil, assim como interpretar, uma vez que, a interpretação, muitas vezes, depende do conhecimento daquele conteúdo. Por exemplo, quem não entende de agricultura não entenderá o vocabulário empregado e tal.

    Mas entendi perfeitamente. Estou, pouco a pouco, entrando neste campo da escrita, e embora, goste muito, tenho as minhas dificuldades. Gostaria muito de ter meus textos analisados por alguém que realmente entenda.

    Mas gostei muito de seu texto. Servirá muito para a minha reflexão. Mas não quero que me desanime, porque quando a gente tem medo de errar e da própria sensura dos outros, evitamos nos expor. Não é mesmo?

    • É a pura verdade, Nilva. Escreva e reescreva… até estar segura de que o texto está bom e será entendido. Essa segurança é o mais impostante. Abraço!

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