Literatura e loucura

sábado, novembro 12, 2016 Jussara Neves Rezende 18 Comments



Sonhar, todos sonhamos. Não apenas de olhos fechados. O sonho dá sentido à vida e o lugar em que hoje estamos só alcançamos por tê-lo já habitado algum dia nas nebulosas regiões da quimera.
O problema com os sonhos é quando seus contornos não são nítidos e eles acabam por se misturar à realidade de tal forma que tornam o sonhador incapaz de distinguir as fronteiras do real e da ilusão, fazendo-o palmilhar os caminhos da loucura.
No miniconto “Naufrágio”, publicado no dia 03 de novembro, a personagem central tem um sonho tão poderoso que acaba por se tornar o centro de sua existência e por controlar suas ações, o que se revela como loucura exatamente por fugir a qualquer lógica ou espécie de controle.


Sonhar com férias na praia ou numa ilha deserta ou mesmo com a posse de uma ilha é um sonho lícito. No conto, o estranhamento com relação a esse sonho se dá na oposição entre o silêncio que a personagem espera encontrar na ilha e os ruídos da cidade, que são odiados na mesma proporção com que a ilha é desejada.
Esse estranhamento – indicador da loucura  se aprofunda, com o avançar do texto, quando se revela que as economias da personagem, voltadas para a compra da ilha, eram moedas guardadas em um cofre com formato de porco, pois ninguém em sã consciência acreditaria ser capaz de adquirir uma ilha com o dinheiro guardado em um cofre como o descrito.


A chacina, que vem a seguir, atende à necessidade de silêncio que a personagem sente e de certa forma transforma o lugar em que vive na ilha deserta sonhada, pois é absolutamente sozinha que essa figura dramática fica, cercada apenas das mudas dos coqueiros que já cultivava, o que é bastante curioso (ou não, em se tratando da temática da loucura), pois se realmente esperava comprar uma ilha, por que razão se daria ao trabalho de cultivar coqueiros que a verdadeira ilha já deveria naturalmente ter?
O fato é que a literatura, ao se interessar por tudo que é humano, vez por outra esbarra na questão da loucura. Foi o caso aqui.


Relativamente ao título do conto, “Naufrágio”, cabe comentar que é uma alusão à loucura, pois fora o sonho da personagem de possuir uma ilha deserta, nada faz supor que a história se passe perto do mar ou de água de qualquer espécie, nem embarcações são mencionadas, nem perdidas, nem afundadas. 
É irônico, portanto, esse título que anuncia um naufrágio que acontecerá às avessas, alertando o leitor para a verdade de que não existem verdades na literatura.

Beijo&Carinho 
Jussara

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18 comentários:

  1. Muito haveria a dizer sobre a loucura, Jussara, já que, para a avaliar, teremos que ter uma referência de sanidade. E essa, no mundo em que vivemos, qual é?
    Creio que não vale a pena continuar a dissertar, pois, como se diz por aqui, para bom entendedor meia palavra basta. ;)

    Um bom final de semana :)

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    1. Tens razão, AC, o mundo anda tão louco que nos falta uma referência de sanidade.
      Também usamos dizer aqui que para bom entendedor meia palavra basta :)
      Abraço!

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  2. Adorei o Post
    Sorteio de uma câmera profissional Cânon rolando no meu blog
    http://rosachiclete2000.blogspot.com.br/2016/11/sorteio-de-4-anos-do-blog.html

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  3. Oi, Ju,

    Eu andei afastada da Internet em tão grande medida, que acabei por me afastar também de muitos blogs (o caso do seu), de modo que, quando retornei (e só retornei um pouco), sentia certa vergonha de me aproximar novamente.
    Mas nunca deixei de pensar em você e nem no seu blog, que é um dos que mais aprecio, rsrs.
    Quanto ao conto, deve ser um interessante e um pouco perturbador. A literatura e as artes, em alguma medida, sempre estiveram associadas à loucura, não é verdade? Mas a loucura nos cerca de vários modos, então - como você disse - que não nos falte sanidade para, lidar com ela.

    Um beijo

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    1. Eu também me afastei muito, Marly, mas sinto falta dos contatos aqui estabelecidos. Fico feliz por apreciar meu blog, pois você sabe que é recíproco :)
      Abraço!

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  4. Oi Jussara, quando lia o texto imaginava, sera que Freud explica?
    acho que aquele ditado, de medico e louco, todo mundo tem um pouco, cai bem, vivemos entre a razão e a loucura, entre o certo e o errado, escrever, sonhar, externar parte da nossa loucura através da fantasia ou ficção é uma forma excelente de sobrevivermos parecendo civilizados e normais.
    Muitos beijos,Vi

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    1. Acho mesmo que nossa arte e nosso amor pelas artes nos livra da loucura real, Vi. Graças a Deus!
      Abraço!

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  5. Oi, Jussara!

    Eu li o seu conton "Naufrágio" e fiquei super impactada com a saída que a personagem encontrou para tornar real o seu sonho maluco. Ficou muito bom o conto, apesar do grande extremo entre realidade e texto. Mas, não precisamos ir muito longe no tempo para nos depararmos com pessoas loucas, que a qualquer custo querem transformar o mundo numa "ilha particular", já tem gente matando no mundo porque as pessoas não concordam com o seu jeito de pensar... Isso é triste, e mostra que nem sempre uma produção textual desse tipo é tão distante da nossa realidade... Ainda tem muita gente que não aceita a liberdade que o outro alcançou e quer lhe colocar algemas. O seu texto é lindo e muito real, precisamos lutar contra a loucura do individualismo e para tal, precisamos tocar os outros, ou acordar os outros com nossas estórias.
    Abração,

    Drica.

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    1. Que lindo isso que você disse, Drica: "precisamos tocar os outros, ou acordar os outros com nossas estórias".
      Exatamente! Justamente essa a função da arte. Por isso amo tanto a literatura! Por isso leio, por isso escrevo.
      Abraço!

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  6. Ola Jussara, interessante estas suas analises sobre um personagem criado em referencia á demência que tanto se estuda e pouco e se sabe.Isto nos faz lembrar o Alienista e o Dr.Bacamarte. Quem são os lucos?

    Boa semana Jussara.
    Meu terno abraço.

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    1. Como diz o ditado, de médico e de louco, todo mundo tem um pouco, rs
      Abraço!

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  7. Não reside a loucura no sonho, propriamente dito, mas na forma como ele se apresenta. Pode-se querer uma ilha deserta, como um sentir do ser humano diante dos demais e de tudo. O caminho de seu conto mostra o desencontro entre realidade e ficção. Não há barcos, como mencionou. E coqueiros existem em todas as ilhas, penso eu. A mente distorcida faz desenhos inimagináveis para quem está de fora. Muito, muito interessante, realmente. Bjs.

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    1. Mente distorcida... exatamente.
      Obrigada, Marilene!
      Abraço!

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  8. Explicação da inspiração!
    Desde o título até a última palavra, o Naufrágio é um exemplo de competência (e felicidade) literária.
    As imagens desta postagem são um show à parte, ilustrando bem a loucura, este tema tão assustador quanto sedutor.

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  9. Gostei, Jussara, são os rumos da demência, buscando isolamento, a humanidade está adoecendo. A Adriana Moreira, foi muito feliz no comentário: "precisamos lutar contra a loucura do individualismo e para tal, precisamos tocar os outros, ou acordar os outros com nossas estórias."
    Os livros, os contos, a escrita, poderão "tocar" e "acordar" o mundo...
    Parabéns, Jussara!
    Abraços carinhosos
    Maria Teresa

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    1. Eu concordo, Teresa. É a razão de ser da arte... esse toque... esse despertar!
      Abraço!

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