Estudo do poema “O tempo no jardim”

quarta-feira, maio 28, 2014 Jussara Neves Rezende 10 Comments





 
Encerrei o post anterior com o poema “O tempo no jardim”, de Cecília Meireles. Volto a ele agora para um pequeno estudo que visa ampliar a visão daqueles que já apreciaram esses versos, de maneira que o texto passe a ter para essas pessoas um significado ainda mais profundo e especial.
Observe que os longos versos do poema indicam a também longa travessia no tempo, capaz de trans-formar o ser que caminha e fazê-lo diferente do que era no início da trajetória:
 

 

Jardins e lagos constituem o cenário criado pelo poema. Marcado no texto pelo vocábulo “nestes”, que designa a proximidade de algo em relação a quem fala, esse espaço é identificado como próximo do eu-lírico: o lugar no qual ele se encontra. Correspondente ao presente do sujeito poético, portanto, esse cenário é também o mesmo de seu passado mais remoto. Os travessões utilizados no primeiro verso servem justamente para destacar o tempo decorrido entre um momento e outro: o passado – quando o eu-lírico costumava andar pelos jardins e se contemplar em seus lagos – e o presente, quando ele volta ao espaço anterior. Devido ao destaque, os vinte anos passados entre um momento e outro pesam como representantes de toda uma vida vivida longe dos jardins e dos lagos, o que teria levado o eu-lírico e seus companheiros do passado a se tornarem diferentes do que então eram. Essa diferença evidencia-se no segundo verso pelo emprego do verbo ser no pretérito imperfeito (“éramos”) a sugerir que deixaram de ser os mesmos aqueles que “então” se contemplavam nos lagos.
 

 
Os outros verbos utilizados nos dois primeiros versos (andaram, contemplaram), também situam no passado o passeio pelos jardins e lagos, indicando ainda que o sujeito poético não se encontrava só, o que os pronomes “nosso” e “aqueles” vêm confirmar. Apesar da referência aos “nossos muitos passos”, até aí não se sabe, porém, se o eu-lírico se fazia acompanhar de apenas uma ou de mais pessoas. Os “muitos passos” podem perfeitamente se referir, como acreditamos que se referem, aos muitos passeios realizados nos mesmos jardins e, não, necessariamente, ao número de pessoas presentes. No entanto, os dois versos seguintes irão sugerir, especialmente pelo uso da expressão “todos nós”, que o eu-lírico se fazia acompanhar de mais de uma pessoa na ocasião dessas visitas aos jardins: “Se alguém de nós avistasse o que seríamos com o tempo,/ todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso”.
 
 
 
 
 
O primeiro destes versos reforça a ideia apresentada nos versos anteriores, de que é o tempo – os vinte anos passados – o grande responsável pela alteração do ser: “o que seríamos com o tempo”. Ainda neste verso, o uso do pretérito imperfeito do subjuntivo do verbo avistar introduz como hipótese remota a possibilidade de se avistar o futuro: “Se algum de nós avistasse...”. O que na realidade se trata de uma impossibilidade, se por um lado é prova da pequenez humana diante do fluir ininterrupto do tempo, por outro, é garantia da plena vivência do presente. Os passeios pelos jardins e os momentos de contemplação nos lagos só puderam ser perfeitamente fruídos porque o eu-lírico e seu(s) companheiro(s) ignoravam as circunstâncias futuras que, se adivinhadas, os fariam chorar “de mútua pena e susto imenso”.
 



Por ignorarem o que o futuro lhes reservava é que o eu-lírico e os outros a quem se refere se separaram, cheios de expectativas pelo que ainda iriam viver. A grande ânsia pelo que viria aparece na terceira estrofe como responsável pela separação daqueles que se reuniam nos jardins. O verbo suspirar, utilizado no primeiro verso dessa estrofe, dá ideia desse anseio, desse desejo de futuro, próprio da juventude. Empregado no gerúndio indica certa duração das expectativas no tempo, quando ninguém “se atrevia a desvelar seus próprios mundos”, egoisticamente envolvidos com os próprios sonhos e projetos.
 

 

Ao iniciar-se com um “E agora”, a última estrofe vem situar o presente, o momento em que o eu enuncia: E agora que separados vivemos o que foi vivido,/ com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo”.
Continua presente nesses últimos versos a melancolia que perpassa todos os anteriores, nascida da certeza de que é impossível voltar aos momentos passados. A primeira aparição do verbo viver no verso “E agora que separados vivemos o que foi vivido”, coloca no presente a vivência do que já não é, do que “foi vivido” no passado de lagos, jardins e suspiros pelo que ainda viria. Mas se no presente o eu-lírico afirma viver o que não é mais possível ser vivido, é pela memória que o vive, a reeditar imagens, personagens e ações.
 

 

Essa vivência, pela memória, entretanto, é bastante dolorida por envolver a perda do que se foi e a comparação com aquilo que com o tempo se chegou a ser. Por essa razão, o choro evitado no passado pelo desconhecimento do que o futuro traria não tem mais como ser represado: “com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo”.
Embora separado dos companheiros do passado, o eu-lírico atribui também a eles, nesse último verso, o mesmo “doce amor” que ele próprio sente pela lembrança de quem foram. Ao chamar de “antigo” o tempo dessas lembranças, uma vez mais o situa distante de si, muito embora, contraditoriamente, seja dentro de si que o traga.
 

 
 
Já disse que a expressão “todos nós”, utilizada no quarto verso, sugere que eram mais de um os companheiros do eu-lírico no passado. Parece claro, de fato, que essas memórias não envolvem um sentimento amoroso por alguém em especial, mas um “doce amor” pelas pessoas que eles eram, tanto o eu-lírico quanto seus amigos, nesse “tempo no jardim”. Talvez seja possível considerar, ainda, uma vez que o poema trata da problemática universal da passagem do tempo, que a expressão “todos nós” ultrapassa os relacionamentos pessoais do eu-lírico a fim de fixar um drama humano. Nesse sentido, o leitor estaria incluído nesse “todos nós” e, com ele, toda a humanidade.


 

Intocados, ainda, pelos vinte anos que iriam passar, modificando-os, o eu-lírico e aqueles que o rodeavam pareciam viver totalmente alheios aos efeitos nocivos dessa passagem, razão pela qual se assustariam e chorariam caso fosse possível, ainda no “tempo antigo”, avistarem-se no futuro.
No instante da enunciação, no “agora” do poema, a imagem do jardim surge como a visão de um paraíso perdido. Muito embora o eu-lírico volte ao lugar dos passeios de outrora, ele não é o mesmo de antes, aquele que podia se contemplar nos lagos. Ele se transformou com o fluxo das horas, muito embora o espaço tenha durado no tempo e chegado inalterado ao presente.
 
 




Trazendo em si a impossibilidade de andar pelos jardins e se contemplar nos lagos, o eu-lírico encontra-se simultaneamente próximo e distante do cenário que descreve. Próximo, por ter voltado a ele depois de vinte anos, mas distante, por ter se transformado em alguém diferente do ser ideal para habitar o jardim e, ainda, por estar separado dos companheiros do passado.
Em algumas mitologias os lagos aparecem como divindades ou moradas dos deuses. Nesse sentido, contemplar-se nos lagos seria aproximar-se do divino ou abrir-se, sem receio, devido à própria pureza e virtude, à perscrutação dos deuses. Uma vez que é a água dos lagos que se converte em espelho no ato de contemplação, é possível fazer ainda uma breve relação com o mito de Narciso, que implicaria numa implícita valorização da beleza da juventude, bem como um repúdio às transformações físicas provocadas pela passagem do tempo, motivo pelo qual apenas no passado fosse possível a contemplação.


 
 
Contudo, se com essa passagem perdeu-se a chave do paraíso e a possibilidade de contemplação, resta ao eu-lírico a melancolia e o “doce amor” entrecortado de lágrimas pelo que foi vivido. A esse discreto choro da voz poética, o som aliterante obtido pelo emprego dos mesmos tempos verbais (pret. imperf.: andaram, contemplaram; fut. do pret.: seríamos, choraríamos), assim como as rimas toantes emparelhadas nos finais dos versos, imprimem também discreta sonoridade.
 

 

Comente, comente, comente...vou amar!

  

Beijo&Carinho,

 

Jussara


 

P.S.: Perdoe-me pela demora em visitá-lo(a)... Prepare o cafezinho que estou quase aí  ;)
 
 
 

10 comentários:

  1. BOM DIA, COLEGA JUSSARA!
    QUE AULA DE PORTUGUÊS, MENINA! AMEEEEEI! :)
    LINDAS IMAGENS TAMBÉM.
    DÊ UMA PASSADINHA EM "GAM DOLLS (2)". ESTOU POSTANDO DESDE ONTEM, MINHAS NOVAS RESTAURAÇÕES. AMANHÃ, SERÁ A ÚLTIMA, DE UMA SAGA DE 3. NÃO PERCA!
    AH... EU CURTI TUA PÁGINA NO FACEBOOK. CURTA A MINHA TAMBÉM. PROCURE LÁ POR "GAM NA COZINHA". SERÁ UMA ALEGRIA TÊ-LA EM MEU CANTINHO, OK?
    TENHA UMA LINDA QUARTA.
    ABRAÇÃO "PROCÊ"! :)

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  2. Gostei imenso de ler a tua excelente dissertação. Quem sabe, sabe!...:-)
    E as imagens são lindas, também.
    xx

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  3. Oi, Ju,

    Achei a sua análise completa e perfeita, parabéns! O tema do tempo e dos efeitos que ele causa nas vidas
    humanas sempre me interessou. Mais do que isso, sempre refleti sobre os sofrimentos pelos quais todos
    passamos. Religiosos e filósofos já afirmaram que viver é sofrer, e nós mesmos já testemunhamos grandes
    sofrimentos, não é verdade? Há várias religiões que acreditam que as pessoas escolhem todas as circunstâncias
    de suas vidas, antes de nascer, inclusive os sofrimentos pelos quais passarão. Acho isso interessante porque
    as pessoas que passam por grandes sofrimentos, depois costumam dizer exatamente isso: "Se alguém de nós
    avistasse o que seríamos com o tempo,/ todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso", rsrs.

    Um beijo

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  4. Já havia lido o poema da Cecília no post anterior, mas reli-o com redobrado prazer, não só por ele - que é uma lindeza! - mas também pelos comentários que lhe faz; é incrível como você consegue como que quase radiografar com palavras o poema em seus mínimos (ou máximos) detalhes! Você é do ramo, eu sei, mas digo isto porque li recentemente um livro de crítica literária (o primeiro que leio) e fiquei meio emperrado com o linguajar acadêmico e citações eruditas, embora não tenha desgostado. Os seus comentários são sensíveis e inteligíveis a qualquer nível de preparo intelectual. Estou por encomendar o seu livro e já sei, de antemão, que vou adorar. Ainda em relação ao poema da Cecília, gostei tanto que gostaria de fazer algo com ele, talvez roubá-lo do seu e postá-lo no meu blog, com link para o Minas de mim. Posso? Abraços.

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  5. Um estudo completo, perfeito, não poderia ser melhor, e as imagens? Cada uma mais bonita que a outra; ótima seleção! Amo esse poema da Cecília, é belíssimo, muito inspirado!

    ♥Beijinhos, uma abençoada noite, e um lindo amanhecer!♥

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  6. Jussara este seu trabalho é muito bonito sobre este tão falado "eu-lírico",
    que aqui fica muito bem entendível na analise desta bela obra, assim
    vem como uma verdadeira aula de literatura.
    Parabéns pela generosa partilha.
    Lembrei de uma passagem de algo que escrevi:
    ...o menino ficava contando os vagões de minério,
    mas não sabia eles levavam uma parte de seu Pico do Cauê...
    Gostei.
    Um abração mineiro d flor.

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  7. Amiga Jussara,
    ler o que você escreve é sempre um prazer, mas neste post você se superou. Delícia! Belíssimas e acertadas imagens! Parabéns.

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  8. Oi, Jussara! Me fez voltar no tempo, ao jardim da tia Tila...Eram dálias, lírios, rosas e bocas de leão, juntamente com palmas e cravos...Indescritível cheiro na memória de infância!
    Poema entendido e sentido, como doce lembrança, obrigada!
    Beijos, Ana

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  9. Ver assim a poesia não é para qualquer um.
    É preciso muito talento para o fazer.
    Parabéns pela excelente análise que fez do poema, tornando-o mais claro aos nossos olhos.
    Um bom domingo e uma boa semana.
    Beijo, querida amiga Jussara.

    PS: vim mais atrás, porque já tinha comentado o teu último post e este ainda não...

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  10. Parabéns pela análise!... Linda, linda...

    Beijos =)

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Obrigada pela visita e pelo comentário :)
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