Poeta ou poetisa?

Poeta ou poetisa?
O tema é polêmico, eu sei. Tanto que cheguei a publicar, na juventude, um artigo em que defendia o uso da palavra
poeta para designar as mulheres escritoras de versos (naquela altura eu adorava
ser chamada assim) e mais tarde, de posse das razões para se escolher um termo
(poeta) em detrimento de outro (poetisa), escrevi o artigo “Em defesa do uso da palavra poetisa”, que circula pela web, e passei a empregar o feminino da
palavra para me referir às escritoras de minha predileção. 

Em sentido horário: Emily Dickinson, Ana Cristina César,
Hoje, mais madura, mas diante, ainda, da
mesma polêmica, abstenho-me de erguer bandeiras, mas compartilho o que aprendi:
a palavra poeta há tempos deixou de se
referir apenas aos homens criadores de versos, tornando-se um substantivo comum-de-dois-gêneros que lhe permite ser utilizada,
sem erro, para se referir aos escritores de ambos os sexos. Além disso, o vocábulo universaliza o ser poeta. Quando
Cecília Meireles afirma (no poema “Motivo”) não ser alegre nem triste, mas
poeta, está justamente a enfatizar a condição artística (e humana) do ser que
cria versos, independentemente de seu sexo.  

A palavra poetisa, por outro
lado, não caiu em desuso, nem implica em incorreção quando utilizada. Aliás,
todas as línguas, desde o grego, têm um equivalente feminino para o vocábulo
poeta. Qual a razão, portanto, que justifica o moderno repúdio à palavra
poetisa?
Tal razão, acredito, passa pela
questão da educação das mulheres ao longo do tempo. Por séculos  não
tiveram elas acesso à educação formal e, consequentemente, nada escreveram. Mais tarde,
quando surgiram as primeiras escolas voltadas para esse novo público, além de
o ensino enfatizar as “prendas domésticas”, as jovens eram incentivadas a ler apenas
romances água-com-açúcar, ao passo que os rapazes se educavam com textos
filosóficos, históricos e científicos. Assim sendo, foi preciso muito tempo,
mas muito tempo mesmo, para que os textos produzidos por mulheres fugissem do
óbvio ou do sentimentalismo.  

Em fins do século XIX e
princípio do século XX, esses trabalhos eram apresentados em saraus
lítero-musicais, acompanhados de chá e torradas, e, em razão dos lugares comuns
que contemplavam, serviam muitas vezes de motivo de riso aos homens presentes que
passaram a associar o feminino da palavra poeta a essa produção literária de
baixa qualidade. Esse sentido pejorativo impregnou-se de tal forma à palavra
que com o passar do tempo ninguém mais queria ser chamada de poetisa e para se referir a uma artista verdadeiramente talentosa, como Florbela
Espanca, Antônio Ferro achou necessário criar a expressão “poetisa-poeta” a fim
de distingui-la entre as demais poetisas de seu tempo. 

Ora, não lhe parece no mínimo
esquisita a necessidade de utilizar uma palavra masculina para conseguir
expressar o fôlego poético de uma mulher que em versos enfatiza justamente sua
condição feminina? Por pensar assim, Natália Correia repudia a homenagem de
Antônio Ferro a Florbela ao dizer que “a homenagem que distingue o gênio
poético feminino com o prêmio de lhe masculinar o estro ultraja uma poesia que
quer feminizar o mundo”. Concordo com ela.
Por tudo isso, embora possa aceitar o uso da
palavra poeta como comum-de-dois-gêneros, rejeito esse uso quando fundamentado no mito de
que é preciso mudar a designação de poetisa para a de poeta a fim de “soar melhor” e conferir maior status à escritora, como se o simples
fato de chamar uma mulher de poeta melhorasse os seus poemas. Atitude no mínimo
“machista”, como afirma Gilberto Mendonça Teles.
Comente, comente, comente… vou amar! 

Abraço,

 Jussara Neves Rezende


46 thoughts on “Poeta ou poetisa?”

  • Jussara,
    Estas questões nunca mexeram muito comigo (talvez por ser homem, sei lá). Habituei-me, desde tenra idade, a utilizar o termo "poetisa", sempre com a maior das naturalidades. Ultimamente, no entanto, vulgarizou-se o termo "poeta" para os dois géneros. Isso mexe comigo? Claro que não. Mas continuo a encantar-me com as palavras da poetisa Sophia.

    Beijo 🙂

  • Jussara, sempre saio daqui aprendendo algo.Eu sempre usei a palavra poetisa, mas penso que o nome não importa, poeta ou poetisa…o que vale são os versos, o encanto, destas escritoras maravilhosas que dão alma as palavras.Beijos querida.

  • Jussarra,
    Adorei o post, nem sabia esses porquês dos usos de poeta e poetisa. Eu gosto do termo poetisa, e até usava sempre. Tudo bem que falar uma poeta também acho bonito. Nunca pensei que houvesse esse tipo de discriminação ao uso da palavra poetisa. Bom saber, aprendi mais uma coisa aqui no seu blog!
    Beijos
    Adriana

  • Olá, Jussara. Gostei muito do seu texto e das fotos. Eu prefiro o termo "poeta" para os dois gêneros, penso que influenciada por Cecília Meireles (minha poeta preferida), naquele sentido do "fazer poético" independente de quem seja. O/A poeta flutua para além de qualquer denominação, dominação ou determinação.

    Abraço.
    Paz e Luz

  • Oi, Ju,

    Eu desconhecia essa polêmica quanto ao uso das palavras poeta/poetisa.
    Durante muito anos empreguei a forma feminina, para designar as mulheres
    que fazem/fizeram versos. Agia assim, apenas por ter aprendido estes nomes
    ainda na escola primária, rsrs. Depois que a palavra "poeta" passou a ser usada
    para os dois gêneros, imaginei que isso se devia às novas reivindicações
    decorrentes dos movimentos feministas, rsrs.
    Este post para mim foi, portanto, muito elucidativo, obrigada! rsrs.

    Um beijo e boa noite

    PS: é sempre bom "ver" você por aqui!

  • Pois é Ju, tive esta duvida outro dia qdo fui fazer a postagem da casa da minha amiga mineira. li alguns links que diziam que a poetisa caiu em desuso por parecer uma forma pejorativa. Não entendi muito bem a questão e deixei poeta mesmo, mas a palavra poetisa é muito linda!

    bju grande querida

  • Excelente o teu artigo "Em defesa do uso da palavra poetisa"!
    Embora "poeta" possa ser homem ou mulher, a palavra "poetisa" determina logo à partida o género de quem escreve, e tem de certa forma uma conotação de quase menoridade ainda hoje, em comparação ao termo "poeta". Como sabemos é difícil retirar das palavras um certo sentido negativo que tiveram, ou neste caso de uma certa "fraqueza", como se o que uma mulher escrevesse tivesse que ser fraco, leve, pouco profundo.
    Que se use a palavra poetisa, porque no fundo a questão essencial é a de dar tanto valor à poesia escrita por mulheres como à poesia escrita por homens, e se isso acontecer a palavra "poetisa" deixará de ter aos poucos essa conotação que já teve.
    xx

  • Se é preciso entender que muitas vezes temos que respeitar a mutação, o envelhecimento de algumas palavras, é preciso que respeitemos sua tradição também. Poetisa enfatiza a singularidade feminina, eu gosto!
    Beijo Jussara e obrigada pela sua visita. Seu comentário me deixou comovida, adorei!
    Denise – dojeitode.blogspot.com

  • Olá Jussara,

    Bem vinda de volta.
    Não tinha conhecimento acerca desta discriminação. Sempre considerei a palavra como comum-de-dois-gêneros e nunca pensei que o emprego da denominação 'poeta' pudesse ter sido considerada de maior peso em relação à de 'poetisa'. Entendo que ambas traduzem o ser poeta. Particularmente, sempre usei 'poetisa' para me referir ao gênero feminino. O gênero não faz distinção entre talentos poéticos.
    Interessante que já li que Sophia Breyner era de opinião que poetisa não era verdadeiramente a forma feminina de poeta, pois atribuía às mulheres um estatuto de menoridade face aos homens com a mesma veia poética. No entanto, pensei que fosse uma opinião isolada e desconhecia a polêmica a respeito.

    Excelente suas considerações, que me trouxeram acréscimo de informações.

    Beijo.

  • Primeira vez que venho neste blog e me deparo com um assunto polêmico que sempre me irritou. Poeta, assim sou desde o meu primeiro poema aos treze anos de idade. A palavra poeta tanto para o masculino e o feminino não tem desígnio em enfatizar a sexualidade. Quando nos referimos a frases como: o homem é um animal racional, há por certo a inclusão da mulher. Este simples exemplo notei desde criança e já havia reparado como os homens gostam de exercer sua superioridade (só na cabeça deles) rss. Um ótimo post Jussara. Foi um prazer ler. Um abraço!

  • Olá Jussara, assim que vi postagem nova no Minas de Mim, corri para ver.
    Sinceramente, gosto muito do termo 'poetisa', ele tem uma sonoridade tão delicada, feminina…
    Gostei muito de ter melhor conhecimento sobre o uso dos termos 'poeta' e 'poetisa'. Um belo post que merece nossos parabéns!
    Bjs, querida. Fique com Deus.

  • Que tenhamos fé e esperança sempre e que a
    gente não desista dos nossos sonhos.
    Hoje venho agradecer seu carinho
    peço desculpas pela grande demora.
    aqui do outro lado da telinha
    eu jamais esqueço de você.
    Fiquei muito feliz em saber
    o quanto posso me alegrar com sua amizade
    O quanto é possível poder contar contigo.
    no caso de gostar de mimos deixei
    na postagem como é simples mais de todo coração.
    Receba meu carinho meu afeto hoje
    e sempre .
    Evanir.

  • Jussara, você terminou sua postagem com a imagem de Elisa Lucinda. Por incrível que pareça, só vim a conhecer seus dotes poéticos quando li a obra A POESIA DO ENCONTRO, onde faz uma parceria linda com Rubem Alves.
    Creio ser essa discussão sem propósito, pois a qualidade dos versos de alguém independe de seu sexo. Ao ser chamada poetisa, a mulher não se encontra em posição de inferioridade qualitativa, frente ao homem, salvo se assim se sentir , dando extremo e arcaico valor à palavra. Sua postagem está perfeita e gostei muito de conhecer seu posicionamento. Bjs.

  • Jussara, estou muito feliz com o seu regresso, que seja lento mas seja firme, porque nos faz falta. O seu post transportou-me para uma aula de Literatura na faculdade, já lá vão uns 12 ou 13 anos. A Professora de Literatura era uma defensora acérrima do termo "poeta" universal. Acho a polémica irrelevante. O que importa é o talento de quem escreve e os sentimentos que consegue arrancar dos leitores. O resto é nada.
    Beijinho minha querida.
    Ruthia d'O Berço do Mundo

  • Jussara, fiquei parva de espanto com a incrível beleza de Elisa Lucinda cuja obra não conheço. Mas esse não é o tema do seu texto, bem sei!
    Nunca me prendi nos laços da guerra de palavras. Acho um pouco perda de tempo, perdoe a minha franqueza. O que de facto me move é a qualidade da obra seja ela escrita por homem ou por mulher.
    Cita Florbela! O que eu suspirei, o quanto sofri e lacrimejei com os seus sonetos! Fui muito (in)feliz, na minha adolescência lendo, relendo, citando, recitando Florbela. Mais tarde, eu própria leccionando literatura, compreendi lindamente as escolhas das meninas minhas alunas, todas devotas de Florbela. Florbela , uma extraordinária, intemporal poeta/poetisa!
    Sophia, a grande Sophia, teve-me/ tem-me como reverente veneradora, adulta, mulher feita!
    Alguém ousará referir que o brilho da sua obra perde o fulgor mediante a designação que a sua autora refere?

    Fiquei feliz com o seu regresso e adorei o seu texto por motivar discussão.
    Um beijinho e bom fim de semana.

  • Oi Jussara, é a Vi, o importante é a qualidade do que se escreve, e se o leitor vai identificar aquela pessoa como um poeta, escritor e etc ou se é mais um na multidão, que acha ser alguma coisa.
    Trocando em miúdos, quando vou ao medico, não me importa o sexo dele, mas que ele seja um bom profissional, preste um bom atendimento..
    Gostei demais da explicação.
    Beijos,Vi

  • Ju, ainda ontem estava conversando com a Vi e disse o quanto seu blog é delicioso de ler e aprender…
    É sempre uma aula, daquelas que todo aluno merece ter, explicativa sem ser chata…

    Eu sempre me referi às poetas, como poetas mesmo, nunca usei poetisa ( nem sei porque, rsrsrsrs)

    Bjus 1000 linda e obrigada pelo carinho no meu niver, ameiiiiiiiiii muito !!!

  • Jussara

    Como fico feliz em vir aqui. Sempre volto com mais uma lindíssima aula. Poeta para designar poetisa sempre tive dúvida. Agora já sei que posso escrever a palavra sem receio.

    Mas é incrivel a sua semelhança com Ana Cristina César. Até pensei que fosse sua foto. É lógico que você é mais linda.
    Adorei a aula.

    Um bom início de semana.
    Bjs.

  • Olá!
    Ao te ler e ao ver tantas maravilhosas mulheres pensei:
    Como podemos "falar" (eu não) e engolir a variação inventada: presidenta e não falar poetisa e fazer cumprir a correta e merecida variação de gênero da nossa língua?
    Enfim! Boa campanha, mas eu, pessoalmente, acho poeta uma palavra redonda, que sendo um é global, recheada, uma palavra unissex, talvez seja hábito.
    Prazer em conhecer e beijos pra vc 🙂

  • Oi Jussara,
    tua esplêndida apresentação veio confirmar o que eu suspeitava mas não tinha embasamento real para confirmar: a intenção de ao masculinizar o adjetivo agregar-lhe valor maior( bah). Comecei a desconfiar desta prática aqui na net ao ver espalhado o termo "poeta" para os dois gêneros de criadores de versos.Não me manifestei contra e nem a favor, porém continuei a usar o feminino em todas as referências, visitas e comentários nos blogs de poetisas, embora tenha entendido que o masculino passou a categoria de comum-de-dois-gêneros.
    Aprendi muito hoje:)
    Uma linda semana pra vc.
    Bjos,
    Calu

  • Muito bem Jussara, ainda que polêmico deve sim ser destrinchado com as mais diversas reflexões sem dor.
    Gostei das informações e ilustrações.
    Uma linda semana amiga.
    Meu abraço mineiro de flor.

  • Jussara obrigada, eu amei o vídeo! Muito bom! Realmente não deveríamos nos preocupar com as aparências, nem tão pouco com a opinião alheia. Devemos sim é prestar atenção a nossas vidas, e na maneira como a conduzimos. Porque é isso que nos torna diferente dos outros. Preocupar-se com aparência, querer estar sempre dentro dos padrões ditados pela moda ou sei lá o que, só nos transforma em cópias. Ser diferente é ser único sem ter medo do que as pessoas pensam. Querer ser igual ao outro, ambicionar seu estilo de vida é uma tremenda bobagem, até porque a vida dos outros pode parecer perfeita, mas só quando vemos de fora e superficialmente.
    Beijo querida, e obrigada pelo seu comentário lá no blog viu, me deixa muito feliz! Boa semana!!!
    Denise – dojeitode.blogspot.com

  • É só nos concentrarmos mais nos sentimentos do que nas técnicas.
    O termo "Poetisa" combina muito melhor com a delicadeza típica dos olhares e jeitos femininos!

    "Poetisar" é uma variação do "poetar", uma forma diferente de captar e expressar o mundo.
    Deveriam se preocupar mais em reformular nossas leis, tão ineficientes, pois os sentimentos se explicam por si só, independentemente de classificações ou rótulos!

  • Jussara, que seleção!
    Não lembro onde li, a Adélia Prado detesta que a chame de poetisa… Entre poeta e poetisa, acho o poetisa mais sonoro, e contrapondo o pensamento de escritor lá em cima, eles também não poderiam ser chamados de "poetisa/poeta"? Porque a condição só cabe ao feminino?
    Enfim, aprendi mais um pouco com vc, grata!

    Tenha uma ótima tarde!

    Bjoooo

  • Oi Jussara
    Gostei do texto e esclarece algumas ideias que formulava sem ter razoes definidas para designar a palavra poeta nas minhas falas.
    Sempre gostei mais e me soava mais forte ,talvez.Poetiza me parecia sei lá um sentido menor mesmo, apenas mais delicado ,
    Com o texto me deparo me questionando se era um gesto machista ou nao.Penso que não.
    Poeta para os dois gêneros, por que não? como tantos outros que existe e não configura machismo.
    Gostei de aprender e saber mais a respeito Jussara,
    Obrigada pela visita e vou ficar por aqui lendo-te mais um pouco, 'poeta' ! rs
    abraços

  • Oi Jussara,
    Agora vc me pegou, pois nunca pensei nisto seriamente, então para mim tanto faz. Se tivesse que escolher, escolheria poetisa, mas só pq eu gosto do som.
    Beijos 1000 e uma noite maravilhosa para vc.

    GOSTO DISTO!

  • Gosto de Poetisa. acho tão delicado.
    Poetisa é também uma palavra que acho bonita independente do seu significado, assim como acho gostoso escrever laranja, acho feia a palavra cadarço e acho engraçada a palavra mexerica. rsrsrs.

    Elisa Lucinda gosto dos infantis "A menina transparente" sempre leio pra minha sobrinha.
    E quanto a quantidade de primas… são 20. rsrsrs.
    bjus Jussara.

  • Ju,

    Eu aprendi como poetisa e sigo.Com tantas mudanças linguísticas, eu fico louca e cada vez escrevo pior.
    Ainda mais vivendo em outro país, tenho uns momentos Luciana Gimenez, que só o Google prá me salvar. Outro dia escrevi "encima" em vez de " em cima", sorte que uma alma generosa me avisou da burrada. Eu já escrevo em mineirês, bobeirês, e se ainda tiver que reaprender de novo o português , o que será de mim?…rsrs…Besitos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *