Caderno de desenho

Caderno de desenho
O grosso caderno
de capa verde e páginas numeradas, que meu avô deu à minha mãe, lembra um livro
de atas, embora seja essa apenas uma primeira impressão. Nele não há pautas e
não consigo imaginar a que fim estaria destinado antes que minha mãe o
transformasse numa espécie de álbum que hoje reúne os desenhos a crayon que ela produziu ao longo da
vida.
Ela era muito
menina quando começou a desenhar e o fazia com tanta facilidade e desenvoltura
que um seu padrinho, carioca, prometia levá-la ao Rio a fim de estudar Belas
Artes. Ele era um padrinho querido e sua morte foi duplamente pranteada: pela
perda em si e pelo fim do sonho dos estudos específicos. 
Adolescente dos anos 50, minha mãe retratava as divas do cinema e as famosas garotas do Alceu Penna, desenhos que anos mais tarde iriam me encantar pelos penteados, formatos dos olhos ou pelas curvas dos lábios.

“Apóstolo Tiago”, de Nara Neves, 13 anos
“Soneto”, Nara Neves, 13 anos

“Marylin”, Nara Neves, 13 anos
“Elizabeth Taylor”, Nara Neves, 16 anos
“Garota na linha”, Nara Neves, 17 anos
“O coração da garota apaixonada”, Nara Neves, 17 anos
“Mulher”, Nara Neves, 19 anos
“Sophia”, Nara Neves, 20 anos
Minha mãe bordou o
próprio enxoval e nesse tempo os desenhos ficaram em segundo plano, sendo
retomados quando meu irmão e eu éramos crianças. Nesse tempo ela ampliava em
cartolinas as figurinhas de Walt Disney e Maurício de Souza, ou desenhos dos
contos infantis, pintava-os com as nossas aquarelas infantis e, recortando-os,
decorava com eles as paredes do quarto.
“Mickey e Donald”, Nara Neves, fins dos anos 60
“A Dama e o Vagabundo”, Nara Neves, fins dos anos 60
Esses desenhos,
guardados quando começavam a estragar, foram colados mais tarde no tal caderno de
capa verde e lá estão junto de ilustrações outras que vieram depois.
Na minha
adolescência minha mãe começou a pintar telas com tinta a óleo, substituindo, desse
modo, algumas experiências do passado feitas com pedaços de compensado e
esmaltes. Eu me casei e os quadros que passaram a decorar minha nova casa (e as
que vieram depois) eram telas suas. O desenho, nesse tempo, se resumiu aos
esboços das pinturas.
Já na
maturidade, entretanto, vez por outra o desenho a crayon é recuperado a fim de registrar a beleza ou tornar
significativo o instante que passa. Assim, o grosso caderno verde continua a
ter suas páginas preenchidas e constitui, a meu ver, uma preciosidade, uma
verde pedra rara que vez em quando amo admirar.
“Lírios”, Nara Neves, 1998
“Renoir”, pintor impressionista francês, Nara Neves, 1998
“O índio”, Nara Neves, 2007
“Greta Garbo”, Nara Neves, 2007
“O Leopardo”, Nara Neves, 2010
“Ana Hatherly”, escritora portuguesa, Nara Neves, 2013
Comente, comente, comente… vou amar!

Abraço,

 

Jussara Neves Rezende
Recado: Aos que aqui param, comentam, ficam, voltam… Hoje me dei conta que o número de seguidores do MINAS DE MIM passou de 500… Obrigada! Tenho vivido dias tensos… Escavar aqui as minhas minas é uma forma de passar por eles de forma mais tênue e feliz. Bom ter a sua companhia 🙂


44 thoughts on “Caderno de desenho”

  • Jussara,
    Sua mãe é uma artista! Desenha muito bem mesmo. E muito cedo já tinha os traços definidos e delicados. Parabéns! Lindas ilustrações. Tem mesmo que conservar todo esse acervo dela. Cuide muito bem desse caderno verde!
    Beijos
    Adriana

  • Que relíquia de memórias apaixonante! Acompanhar os traços e com eles os sonhos, dessa mulher talentosa
    é como ler uma biografia em quadrinhos…Obrigada por compartilhar! Parabéns à Nara, pelos lindos trabalhos!
    Beijos, Ana

  • A vó é uma artista mesmo! Tenho maior orgulho de ser descendência dela e sua. Vcs são as duas pessoas que mais amo no mundo. Saudade, mãezinha linda do meu bem querer.
    Ângela

  • Boa tarde, Jussara. Que post maravilhoso….Amei ler seu texto (como sempre!) e apreciar tão belos desenhos de sua mãe. Incrível o dom que ela tem e que na mais tenra idade já impressionava pela perfeição.
    Parabéns para ela! Diga-lhe que tem uma admiradora Potiguar.
    Beijos, querida. Fiquem com Deus.

  • Olá Jussara!
    Adorei ler sobre a sua querida mãe, uma verdadeira artista! Eu não tenho talento nenhum para desenhar ou pintar; também se aprende, mas quando não existe talento…não vale a pena.
    Parabéns e obrigada por partilhar!
    xx

  • Ah, Jussara, felizes os que não esquecem seus tesouros mais significativos, que cuidam e preservam para que eles não se deixem tragar pela transitoriedade da vida. Esse caderno assume a função de resguardar boas lembranças de sua infância, de sua mãe e da família como um todo. Sua mãe está ali, representada em cada traço, e, como flashes poéticos, te brindam a cada página. E agora a nós também! Obrigada por compartilhar conosco um pouquinho de suas preciosidades. E parabéns! Seu modo de nos contar sobre o caderno e suas impressões, por vezes assumem a força de seu sentimento e, por outras, a delicadeza de sua infância.
    Um beijo minha querida,
    Denise – dojeitode.blogspot.com

  • Ju, que saudades… sim, eu andei enrolada por demais… mas voltei, voltei para ficar por que aqui, aqui é meu lugar… tá, parei, srrsrs

    Você tem um tesouro em suas mãos !!!

    Que delicia , e que talento tem sua mãe !!!

    Vi sabe desenhar e pinta muito bem, eu sou uma negação, nem com lápis de cor pinto direito… uma negação, srsrsr

    Obrigada por dividir com a gente esse pequeno tesouro .

    Vi um comentário deu na Déa Prado, quevc quer vir prá Sampa, ó quando vir está intimada a me conceder a honra de conhece-la hein ??? (ah, sou dessas que lê os comentários alheios, rsrsr)

    Bjus 1000 minha querida e um finde muito lindo prá ti

    Pepa

  • Oi Jussara,
    Adorei os desenhos da sua mãe. Eu tb gosto muito de desenhar e nem sei se desenho bem ainda, pois qdo era adolescente, eu desenhava muito bem, mas minha mãe não queria uma artista na família… esta é uma história muito longa.
    Beijos 1000 e um ótimo final de semana.

    GOSTO DISTO!

  • Jussara querida, este livro é um tesouro!Sua mãe é uma artista de verdade, tem os traços firmes e precisos .Quando eu era adolescente também gostava de desenhar, tenho meus desenhos guardados até hoje, dentro de uma pastinha. que vou expô-los em meu quarto, acho bacana valorizar nossas artes. Beijos!

  • Linda essa historia. Uma reliquia mesmo. Sua mae devia ser sensivel e sonhadora na adolescencia. E que bonito seu avô dar um caderno para incentivar. E depois voce restaurar, guardar e ficar com os quadros.
    Beijos e prazer em conhecer seu blog e um pouquinho de voce ( adorei o titulo do blog)
    Cam ( cameliadepedra.blogspot.com)

  • Oi Jussara, é a Vi, pena que sua mãe não foi estudar, mas Deus sabe todas as coisas não é?, o importante é que ela continuou a exercitar seu talento.
    Observei o detalhe dos olhos, muito bonito o efeito que sua mãe faz.
    Eu achei lindo ela ter esse caderno e essas recordações serem guardadas com tanto carinho.
    Beijos,Vi

  • Que lindo, Jussara! Os traços são perfeitos! Hoje existe tanta técnica que mesmo quem não tem talento consegue desenhar. Mas naquele tempo tudo era tão difícil.
    Acho que os estudos fariam uma bem enorme a ela, mas não mudaria muito o talento. Só aperfeiçoaria um pouco e ela adquiriria técnicas variadas.
    Adorei o índio, a onça, e todos!
    Não fez um autorretrato? Nem desenhou os filhos?

    Um enorme beijo pra vc e uma ótima semana!

  • Jussara, querida

    Nossa, como eu fiquei encantada em ver os desenhos de sua mãe. Ela é uma Artista e tanto. Que bom que guardou tudo, e

    aquele livro verde, é muito valioso, pois guarda tanta maravilha.

    Dê os meus Parabéns pra ela, por favor.

    beijo carinhoso e ótima semana

    Regina Célia

  • Que preciosidade este caderno! Sua mãe é uma verdadeira artista, quanto talento. Admiro muito quem desenha.
    Obrigada por sua visita. Fico muito feliz quando vc passa pelo meu cantinho.
    Tenha uma abençoada semana.
    Bjs.

  • Olá Jussara,

    Sua mãe é uma artista nata. Pena que não teve a oportunidade de desenvolver seu talento tecnicamente. Tenho certeza de que seria atualmente uma artista conhecida. Mas para tudo há uma razão, né? Mas ainda é tempo; basta ela querer.
    Achei lindo o trabalho dela. Com apenas treze anos ela desenhou a "Marylin" com perfeição. E também os traços da Sophia
    chamam a atenção. Adorei.

    Muito bacana este seu carinho em homenagear a sua mãe através da divulgação de seus desenhos.

    Ótima noite e feliz semana.

    Beijo.

  • Oi, Ju,

    Nara Neves nasceu com o dom artístico, sem dúvida nenhuma. Fui lendo o post e imaginando o que teria acontecido ao talento dela, se ele tivesse sido plenamente explorado e desenvolvido. Ela tem talento e também uma boa percepção para os detalhes e isso já se evidencia nos desenhos da menina. A sua mãe é uma artista! rsrs.

    Um beijo e ótima semana, querida!

  • Jussara,
    Já vi que esse caderno de capa verde é relíquia preciosa. É que, para além do talento, as suas páginas respiram afecto, química familiar que une as pontas da nossa inquietação.
    Quanto à questão que colocou no Interioridades, digo-lhe que não tenho obra publicada. Por enquanto.

    Beijo 🙂

  • amiga que coisa mais linda… isso é uma relíquia.
    que pena ela ter trocado tudo por fazer o próprio enxoval…
    eu jamais faria essa troca. e vc?
    bjus amiga.
    ah, deixa eu te contar a retrospectiva da Bodas de Ouro foi feita em cima da musica Fascinação na voz de Sandy. foi o maior chororô.

  • Que coisa mais linda Jussara? E que relíquias você tem nas mão! Não sei como você guarda o livro com os desenhos feitos pela sua mãe, mas tome muito cuidado com mofo. Sal de sílica é ótimo para colocar em armários, estantes e gavetas (dissecantes, absorvem umidade).
    Também guardo verdadeiras pérolas aqui em casa que pertenceram aos artistas anônimos da minha família. Mamãe tinha um irmão que desenhava ícones do cinema americano, muito parecido com os desenhos da sua mãe, hoje espalhados entre os parentes. Acho que as pessoas dessa época tinham mais tempo e silencio para exercitarem suas criatividades… Não tinham tantas distrações como TV, internet, tabletes, celulares… Acho que fiquei saudosa demais. Adoro vir aqui, sempre temos uma surpresa gostosa.
    Bj grande, linda semana yvone

  • Que haja luz nos seus dias, afastando as tensões e ajudando-a a enfrentar seus desafios.
    Fiquei encantada com o dom de sua mãe. Ainda ontem eu estava me lembrando de uma colega do antigo ginasial, que desenhava o rosto dos colegas com perfeição. Me perguntei o que ela teria feito dessa aptidão, pois perdemos contato há muitos anos.
    Os trabalhos de sua mãe são preciosos. Estranhos são os caminhos que percorremos e que muitos dizem ser frutos de opção. Certamente, sua mãe teria feito outra escolha, se a vida não a tivesse privado da companhia de seu padrinho. Grande beijo!

  • Olá Jussara,

    sua mãe aproveitou-se bem do tempo de lazer desde a infância! Com bonitos traçados, deixou seus desenhos bem feitos como herança cultural para os filhotes. Foi pena mesmo não ter aprendido Belas Artes já que era sua vocação mas, certamente, viveu o sonho de se casar e ter filhos, o caderno estava lá, aguardando que ela tivesse um tempinho para desenhar porque o dever não espera! Parabéns pela mãe que você teve e, pelo avô visionário e incentivador também!
    Ótimo finzinho de terça-feira.

    Beijão,
    Lu

  • Desenhar é um dom fantástico!
    Tem gente que em poucos segundos, com alguns traços precisos, consegue transmitir uma ideia no papel. São pessoas que tiram o máximo do mínimo, e isso é um talento precioso.
    Outros são detalhistas, traçam e revisam o desenho várias vezes, sem pressa, até considerá-lo digno de estar terminado. Alguns preferem traços monocromáticos, de lápis ou carvão, outros exploram as possibilidades das diversas cores.

    A vida é cheia de possibilidades, acasos e surpresas… quando sua mãe imaginaria que outras pessoas, desconhecidas e em outras cidades, veriam suas pequenas obras de arte, feitas na intimidade de um caderno?
    São as possibilidades do século XXI, ao homenagear – transmitindo e conservando – o talento e sensibilidade da sua mãe.

    Gostei muito da postagem!

  • Querida Jussara, o talento corre na família, estou a ver. A sua mãe nunca te desenhou? Esse era o desenho que mais esperava ver… embora todos estes estejam belíssimos.
    Um abraço, um doce restinho de semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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