Poema e poesia

Poema e poesia
Para minha amiga Vi, que sugeriu este post
Escolhi dois poemas – um do poeta
renascentista português, Luís Vaz de Camões, e outro da modernista carioca,
Cecília Meireles – para ilustrarem algumas considerações sobre diferenças e
semelhanças entre poema e poesia.
Já tratei deste assunto aqui, mas nunca
é demais retomá-lo, já que está sempre a suscitar dúvidas entre aqueles que não
são especialistas no assunto. A esse respeito, um primeiro conselho que eu
daria ao leitor comum de poesia é para não se preocupar com rótulos e
nomenclaturas, mas apenas em fruir a poesia, em senti-la e deixá-la fluir. No
fundo, é apenas isso quer importa.

Vejamos os poemas selecionados:

A principal dúvida, com que sempre me
confrontei, sobre as características do poema e da poesia estão relacionadas ao
fato de alguns textos poéticos apresentarem métrica e rima (como o de Camões) e
outros terem versos livres e brancos, ou seja, não serem rimados, nem
metrificados (como o de Cecília). Os rimados e metrificados seriam poesia,
segundo acreditam aqueles que se deixam enganar por essa confusão que não
consigo imaginar onde e como começou, ao passo que os textos com versos livres
e brancos seriam poemas. Puro engano! Embora realmente exista uma diferença
básica entre poema e poesia ela nada tem a ver com rima ou métrica.
 
POESIA é a emoção, a sensibilidade, a beleza, que todos podem sentir, mas só o poeta sabe captar em forma de versos, de um
modo todo especial, cada poeta com o seu. Camões, por exemplo, para
caracterizar o amor usou versos com a mesma medida (10 sílabas poéticas), todos
rimados, além de belos paradoxos (como o fogo que não se vê ou a ferida que dói
sem doer).
Cecília Meireles, por outro lado, sem
usar rima nem se preocupar em criar versos com a mesma medida (veja, por
exemplo, a diferença de tamanho entre o primeiro e o último versos de seu “Epigrama
nº8”), mas criando belíssimas metáforas de instabilidade ao usar símbolos de
transitoriedade, como “nuvem” e “onda”, falou da entrega a uma relação amorosa fadada
ao insucesso.

Note que nenhum dos poetas falou de
algo desconhecido, muito ao contrário: falaram de sentimentos e situações muito
humanas. Ao fazerem isso, entretanto, o fizeram de um modo incomum, artístico,
poético. Isto é poesia: a sugestão de emoções por meio da linguagem.

POEMA, por outro lado, é a obra em verso que
contém poesia. Ele pode receber muitos nomes diferentes, como soneto (que é uma estrutura poética de
14 versos [duas estrofes de 4 versos e duas de 3]), caso do poema de Camões
aqui apresentado, epigrama (pequena composição poética, que termina
com um pensamento engenhoso), como o poema de Cecília, bem como balada, ode, elegia,
canção, etc.
O POEMA
é, portanto, um objeto concreto, ao passo que a POESIA tem uma existência imaterial: manifesta-se no espírito do
poeta que a aprisiona no poema que constrói e, em seguida, no espírito do
leitor que consegue captá-la. Além disso, estará para sempre alojada no poema
onde poderá ser encontrada em qualquer tempo ou lugar.
Você pode usar as palavras POEMA e POESIA como sinônimos, pois na verdade toda poesia escrita é um poema. Os
poemas é que nem sempre contêm poesia; os maus poetas esquecem aquilo que os
grandes poetas sabem muito bem: o bom poema é mais que sua estrutura em forma
de versos, pois suscita emoções através de figuras de imagens inovadoras e
sensíveis, do ritmo obtido através das rimas ou da métrica ou, na ausência
delas, pela repetição de palavras, pelas aliterações e assonâncias (que são
sons semelhantes distribuídos nos versos) e pelo que nos faz sonhar.
Espero ter ajudado!

 Abraço,

Jussara Neves Rezende
#Recado: Estou meio sumida por estar sobrecarregada de trabalho, mas tão logo seja possível apareço para um dedo de prosa, sim?


33 thoughts on “Poema e poesia”

  • KKKKK Jussara vou ficar com o primeiro post sobre o assunto rsrsrs eu me confundo, confesso que li duas vezes, mas vou imprimir e estudar de novo fiquei na dúvida, sempre achei que tinha haver as diferenças com rima e olha a coincidência vindo sábado da feira com minhas filhas, falei da mais velha sobre o seu post anterior! perguntei a ela se ela sabia a diferença!!

    bjs

    Gélia

  • Oi Jussara, é a Vi, ótima explicação, mas essa relação poema e poesia, sempre vai dar confusão..( e rimou). kkkkkk
    Você estas sempre em minhas orações, querida..
    "A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre.Salmos 73:26"
    Muitos beijos,Vi

  • Jussara… eu li, reli… e reli…. e pronto! Continuo admirando as pessoas com dom de poetar. E de poetizar também….. Afff…. muito complicado, amiga! hehehehehehe

    A poesia de Camões, eu decorei, na época de escola. E me lembro até hoje.A professora era uma amante da poesia e nos fazia decorar muitas delas. Nós a odiávamos, mas hoje sei que ela fez uma diferença enorme na minha vida escolar. Que bom!

    Um lindo domingo pra vc!
    Beijos

  • oi JU

    Vim agradecer teu recado na minha última postagem!!
    estou numa fase complicada, mas espero que neste mês consiga reencontrar meu
    caminho, já não sei quem mais é a ana fora do blog… por isso teu recado foi tão importante, obrigada pelo carinho <3
    Ajudou mito sua explicação, sempre fazemos essa confusão entre poema e poesia.

    bju grande e ótimos trabalho pra vc também!

  • Você aprende a gostar de você,
    a cuidar de você e, principalmente,
    a gostar de quem também gosta de você.
    A vida me ensinou ,
    que amar vale em qualquer circunstancia,
    em todos minutos da nossa existência.
    Quando a tristeza invadir sua alma
    haverá sempre alguém ,
    que um Dia você plantou sementes de bondade
    essas irão a seu socorro dizendo:
    Hoje venho trazer rosas , que você plantou
    com carinho .
    Agora sou eu , que acarinho sua alma chorosa.
    Deus abençoe sua semana.
    Espero você com muito carinho no meu blog.
    Beijos no coração carinhos na sua alma.
    Evanir.

  • Depois desta 2ª aula, não há como não entender as diferenças entre poesia e poema: o poema, com rimas ou sem rimas, metrificado ou não,é como um baú; a poesia é o que está dentro do baú. E por falar em poesia, li o seu livro três vezes e creio que o lerei mais. Você vai lá no fundo de si lavrar as suas minas e se mostra nelas com muita sensibilidade e paixão e, sobretudo,humanidade. Nada mais humano que as dúvidas, os dilemas , as contradições. Nada mais barroco. Você é barroca na alma (acho que todos somos um pouco),mas a forma (o baú) é límpida e clara, é simples e acessível. Não gosto de hermetismos.
    Os seus versos, apesar de pouquíssimas rimas ou nenhuma – o que não faz a menor diferença – são plenos de sentimento, de emoção, e pareceu-me que deles emana algo como uma sonoridade musical, sei lá… Deve ser a tal de poesia.
    Jussara, já estou a falar de coisas que não entendo bem, mas espero que nos brinde com mais de suas minas. Abraços.

  • Jussara
    Sempre faço confusão entre poesia e poema. A sua indicação da primeira aula com esta foi enriquecedora. Me detive até nos seus comentários definidas com muita mestria que só uma professora de literatura sabe ministrar:
    Poesia-corpo, faro farol. Poema -alma- objeto concreto. O poema, com rima, métrica, ou na ausência desta, as aliterações e assonâncias é mais que a estrutura em versos, suscita emoções que nos faz sonhar.
    João A. Ventura está falando no comentário acima sobre o seu livro? . Fiquei curiosa.
    bjs.

  • Oi Jussara, querida

    Adorei a sua visitinha, sempre tão amável.

    Quanto ao seu post, eu faço muita confusão, mais um dia eu aprendo.

    Não fique deprimida, não. Isso não é bom. Só faça as coisas de acordo com o seu

    tempo. Tente relaxar, não vale a pena.

    beijo carinhoso

    Regina Célia

  • Minha amiga super querida, que saudades daqui, de suas postagens, de aprender e expandir meu conhecimento, como sempre faço aqui… saudade de tudo!
    Estou retornando as atividades no blog.
    Estou em um momento lindo na minha vida, cuidando dos meus três filhos em tempo integral, minha vida está sendo dedicada a eles. Posso até dizer que estou VIVENDO de amor.
    Meus pequenos já estão com um mês, a rotina já está um pouco estabelecida, pelo menos sei os horários de dormidas mais longas, risos! Resolvi voltar porque também quero registrar minha nova etapa aqui.
    Hoje passo rapidinho para agradecer toda sua atenção, suas palavras de carinho, tenho certeza que me abençoaram a ter um parto iluminado.

    Beijo grande.
    Voltarei com mais calma…

  • Dois poeta de poesia de incomparável beleza e sensibilidade. Gosto muito das poesia de Cecilia, mas sinto um pouquinho de amargura em seus versos, parece que ela não gosta da imagem dela projetada no espelho.
    Bjos e tenha uma ótima semana.

  • Oi Jussara que bom encontrar este post super esclarecedor. Eu sempre gostei de escrever desde a infância, porém sem conhecimento algum. Agora com a Internet estou me inteirando de tudo um pouco e com mais acesso as informações me enchi de coragem de jogar tudo nessa telinha mágica e criei dois blogs. Desde 20ll venho colocando neles todas as minhas emoções mas sem nenhuma técnica. Hoje me encontro com 6l anos de idade mas ainda quero fazer Letras é o meu sonho, então quando encontro orientações assim como as suas, fico realmente feliz. Aprendi muito te lendo e vou continuar.
    Meus blogsp. Expressodointerior.blogspot.com e Suaveenatural.blogspot.com
    Agradeço muito por compartilhar tantos conhecimentos.

    • Coisa boa receber seu comentário, Lourdinha! Confesso que muitas vezes pensei em desistir de escrever aqui, pois é realmente muito trabalhoso "dar uma aula" por escrito, coisa que frequentemente faço aqui, MAS é por pensar que posso fazer alguma diferença cá neste mundo que insisto e continuo. Por isso seu comentário muito me alegrou.
      Eu lecionei por 25 anos em cursos de Letras: Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira. Amava, pois amo literatura!
      Espero que você realmente faça seu curso, que independe da idade, e continue escrevendo. Vou lá conhecer seus blogs, sim?
      Abraço!

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