Literatura: espaço de Eros

Literatura: espaço de Eros

Na mitologia grega, Eros é uma das divindades  primordiais, visto se tratar de uma força fundamental do cosmo, com poder suficiente para garantir a continuidade das espécies, bem como a própria coesão interna do mundo.
N’O banquete, de Platão, entretanto, longe de ser um deus poderoso, Eros aparece como um intermediário entre deuses e homens. De acordo com Sócrates – o último interlocutor dos seis discursos que no banquete foram proferidos em honra de Eros – este teria sido gerado no jardim dos deuses após uma grande e orgíaca festa. Seus pais? Poros (Recurso) e Pênia (Pobreza). Esta origem determinaria a inquietude e a insatisfação que o levam a perseguir, incessantemente, filho da Pobreza que é, o que lhe falta, ainda que, como Recurso, seu pai, saiba exatamente os meios para atingir seu objetivo.
EROS E PSIQUÊ, DE ANTONIO CANOVA (DETALHE)
O pensamento de Georges Bataille sobre o erotismo não se opõe a esse sentido mítico. Segundo este autor, há entre os seres “um abismo, uma descontinuidade”, em razão de todos os seres serem diferentes uns dos outros. Na reprodução, quando os seres descontínuos se unem, se estabelece entre eles, pela fusão, uma continuidade, independente de sua diferença. Essa continuidade, no entanto, instituída na geração de um novo ser, é interrompida com seu nascimento e ironicamente o novo ser trará em si a “nostalgia da continuidade perdida”, razão para que, ao longo de sua existência,  tente alcançar o sentimento de continuidade que o poderá livrar de sua descontinuidade e isolamento.
O erotismo seria, assim, essa busca pela continuidade, pela completude, em cujas bases se encontra o mesmo sentido de insatisfação referido n’O banquete, responsável pela inquietude de Eros.
Para Georges Bataille a essência da paixão é, justamente, a procura da substituição de uma “descontinuidade persistente” por uma “continuidade maravilhosa entre dois seres”. Assim, a paixão faz com que o amante acredite que o ser amado “equivale à verdade do ser” e que, portanto, ao possuí-lo, será possível eliminar o sofrimento causado pelo seu isolamento em sua descontínua individualidade. Por essa razão a paixão envolve “louca intensidade”. O que nela está em jogo, segundo Bataille,
é o sentimento de uma continuidade percebida no ser amado.  Ao amante, parece que só o ser amado pode neste mundo realizar o que nossos limites não permitem, a plena fusão de dois seres, a continuidade de dois seres descontínuos.
EROS E PSIQUÊ, DE ANTONIO CANOVA
Curiosamente, embora a paixão seja procurada como forma de evitar o desconforto pelo isolamento do ser, já que em essência constitui a procura de um impossível, acaba por envolver também o sofrimento. Nos poetas este sofrimento é transformado em versos que, segundo Bataille, têm o poder de conduzir à mesma sensação de completude conferida pelo ato amoroso. De acordo com este raciocínio, quando o poeta registra em versos a sua dor está na realidade a buscar, através da arte, a continuidade que a vida lhe negou ao lhe negar o amor. Se assim é, ainda que a literatura seja muito mais que a mera expressão de sentimentos, ao possibilitar a manifestação da dor nascida da impossibilidade de se alcançar o que se deseja, torna-se espaço para a expressão de Eros em sua eterna busca pela impossível completude.
IMAGENS: GOOGLE IMAGENS
Para aprofundar este assunto:
BATAILLE, Georges. O erotismo. São Paulo: ARX, 1987.
BRUNEL, Pierre. Dicionário de Mitos Literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000, p. 320.
PLATÃO. O banquete.  São Paulo: Martin Claret, 2008.
                        Abraço e até a próxima!



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