Noturno - um poema de Roberto Silva




Roberto Silva é paulistano, mas percorre há algum tempo as paragens mineiras. É formado em Violão pelo Conservatório Estadual de Música de Varginha e graduado em Letras pela UEMG-FEPESMIG, onde também se especializou em Língua Portuguesa. Especializou-se, ainda, em Literatura Brasileira pela PUC-BH e em Docência em Educação a Distância, pelo UNIS-MG, Varginha. 
Roberto revela viver um “caso quase secreto com a Poesia e a Música”, mas pelo que conheço de sua poesia está mais que na hora de o caso ser revelado, publicado, divulgado. Por isso divulgo hoje este poema aqui. 

O poema é do Roberto, a ilustração é minha.

Obs.: Já apresentei o Roberto e um outro poema dele aqui.

Beijo&Carinho,
Jussara

As leitoras de Vladimir Volegov


É impressionante a capacidade de Vladimir Volegov, artista plástico nascido no interior da Rússia, de retratar a figura humana. A época em que perambulou pela Europa, ganhando dinheiro a pintar retratos nas ruas de grandes cidades como Barcelona, Berlim e Viena, foi certamente decisiva para o aprimoramento desse talento natural já notado desde a adolescência.






Sua paleta de cores vibrantes associa-se aos traços simultaneamente delicados e marcantes das figuras que retrata e o resultado disso são imagens de uma sensibilidade atemporal.
É notável sua preferência pela figura feminina e, em especial – o que despertou meu interesse por sua obra – por jovens leitoras.




Na seleção que apresento aqui, observe que todas as mulheres estão às voltas com um livro: a maior parte delas totalmente absorvida pela leitura, embora algumas apareçam distraídas com alguma coisa que as faz abandonar o livro.




Eu gosto especialmente da primeira tela, que retrata a leitora de vestido laranja. Toda a pintura é muito linda: o cenário é bonito, as pinceladas são perfeitas – chegam mesmo a sugerir a água nas bordas da fonte e as dobras do vestido –, a jovem é linda e parece real. A terceira tela parece uma fotografia: a moça, de traços perfeitos, semelha estar olhando para quem procura analisá-la. 





Não gosto da leitora de blusa azul de frente para o mar, pois a posição em que se encontra me parece artificial demais; a última leitora, por outro lado, eu amo: sua maneira de ler é a mesma com que minha filha estuda desde sempre e neste exato momento estou a sentir saudades dela.
E você, gostou especialmente de alguma tela?

Beijo&Carinho,

Jussara


Obs.: Mais telas de Vladimir Volegov e telas de outros pintores que também retratam leitores podem ser encontradas em meu painel "Ler é uma arte", no Pinterest. Acesse aqui.

Bolinhos de Carne OU Joãozinho e Maria na versão de minha bisavó


Josefa Gonçalves, minha Vovó Bisa

Era uma contadora de histórias a minha bisa. Ia dizer que ela gostava de contar os “causos” perdidos no tempo, recuperados por sua memória e ofertados por sua voz, mas não sei ao certo se ela realmente apreciava contá-los ou se apenas se dedicava a esses momentos como forma de carinho, pois me conhecia e ao meu – desde sempre – insaciável apetite por poesia, ficção e histórias verdadeiras vindas de épocas distantes, travestidas de fantasia.
Ela era analfabeta, mas possuidora de vasto repertório de contos de assombração, de princesas e fadas, todos com uma pitada muito sua no enredo, o que me levava a procurá-la ao fim da tarde, depois de cumpridos os deveres escolares, no quartinho onde ela vivia, em casa de meus avós, com o seu guarda-roupa de madeira escura e espelho bisotê manchado pelos anos.
Era hora de desenhos animados na tevê, mas Tom & Jerry e a Pantera Cor-de- Rosa não tinham como competir com suas lembranças de bonecas feitas de trapos e sabugos de milho, de porteiras e estradas poeirentas, de casamentos arranjados, chás e benzimentos.
Lembro-me de ouvi-la enquanto segurava suas mãos gordinhas, a pele fininha, cheia de manchas de idade. Eu achava lindas essas pintas, razão pela qual, ainda hoje, passados tantos anos, assusta-me que alguém possa desejar apagá-las com ácido, laser ou sei lá o quê, quando são elas uma espécie de poesia ou mapa ou tatuagem capaz de fazer sonhar.
Além das irrecuperáveis histórias de tradição oral e de suas memórias de menina nascida no tempo da escravidão, minha bisa contava também historietas infantis tradicionais, mas nem Cinderela nem Bela Adormecida tinham esses nomes conhecidos. Eram, sim, filhas de fazendeiros ricos, de cidades vizinhas à nossa, que se casavam com belos rapazes, também endinheirados, que, estudados, vinham resgatá-las da vida interiorana. Minha bisa, não sei como, era convidada para as festas de todos esses casamentos e de lá saía com um pratinho de doces para mim, mas tropeçava sempre na pinguela sobre o riacho que havia no caminho e os doces acabavam caindo na água e se perdendo.

Aqui, com meu tio Nylton

A frustração que eu sentia por me ver privada dos doces me alcança ainda agora, bem parecida com a sensação de fazer parte de um conto de fadas que me toma toda vez que frito bolinhos de carne.
Na versão de João e Maria, contada por essa avó do passado, os irmãos encontram uma casa na floresta onde morava uma bruxa que... fritava bolinhos! Nada de chocolates e doces, mas um prato de bolinhos de carne no parapeito da janela, enquanto lá dentro a velha ocupava-se fritando mais, é que teria atraído os irmãos perdidos e esfomeados.
Não me lembro da voz de minha bisa, mas recordo-me perfeitamente de seu sorriso e do encantamento que experimentava ao ouvir seus “causos”.
No ar frio da manhã o cheiro dos bolinhos de carne que vão sendo fritos e descansam na travessa colocada na janela atiça o apetite da cachorrinha que me olha numa súplica. Os filhos chegam e a algaravia de suas vozes dispersa a sensação de ser eu a feiticeira da cabana na floresta.
Estou de volta a mim mesma e ao novíssimo sonho de aconchegar no meu colo e nos meus contos os netos e bisnetos que um dia terei.


Beijo&Carinho,
Jussara

Análise de um conto em sala de aula



Não me lembro se no livro A gestação do futuro ou em Da esperança, Rubem Alves diz que “escrevemos para descobrir co(n)spiradores, gente que respire o mesmo ar”. Acredito que ninguém que me lê aqui irá discordar, pois só o que fazemos hoje em dia – quando todos nos tornamos escritores, editores e críticos – é justamente procurar a o acolhimento do outro, o seu penetrante olhar que nos perceba, compreenda e aceite, não é verdade?
Por isso os escritores e artistas plásticos se organizam em academias, os leitores em clubes de leitura, os artesãos em associações, os médicos em conselhos, os religiosos em concílios e os trabalhadores, de modo geral, em sindicatos. Queremos companhia.  “Por isso me exponho cruamente nas livrarias”, diz Carlos Drummond de Andrade”... “preciso de todos”. Assim é.
Por isso é tão bom o retorno quando alguém lê o que escrevemos e deixa um comentário mostrando que entendeu aquilo que pensamos transmitir  ou que pensou em algo que nem havíamos imaginado, mas que ilumina de um jeito novo aquilo que dissemos.
Por isso me alegrei tanto quando uma ex-aluna me enviou a foto de um miniconto meu, que publiquei aqui, transcrito por ela na lousa em uma aula de literatura que ela ministrava num 1º ano do Ensino Médio:


Ela propôs questões sobre o conto e deixou que os alunos pensassem sobre elas, abrindo, depois, espaço para considerações em grupo.


 Aqui o miniconto:

 Aqui as questões propostas:

Achei importante que ela tenha levantado o tópico da intertextualidade, pois sem intertextualidade o meu conto sequer existiria, pois pressupõe, antes de mais nada, a existência do conto “Branca de Neve”, dos irmãos Grimm, que todos conhecemos.

Para ler o que escrevi sobre intertextualidade, clique aqui.
Para ler o que escrevei sobre miniconto, leia aqui.
Para ver a publicação original do meu miniconto “Branca de Neve” online, clique aqui.
       (O conto foi também publicado em jornais impressos)

Beijo&Carinho,
Jussara