MUSCULO COM MACARRÃO PADRE-NOSSO



Ao preparar a carne para o almoço surpreendo-me a constatar que apesar da simplicidade do prato é ele um dos meus preferidos.  Leve, mas com um sabor suavemente picante e original.


Surpreendo-me ainda mais quando, posta a mesa, a família ao redor, meus filhos concordam comigo sem nem mesmo saberem o que eu havia pensado há pouco: “É um dos meus pratos preferidos”, confessa o Gabriel. A Ângela aquiesce enquanto se serve de mais uma colherada. E depois, quando me manda uma mensagem via whatsApp  a dizer o quanto o marido apreciou a marmitinha preparada para ele.

Estou quase certa de que se trata de uma receita de Bettina Orrico, chef da Cozinha Experimental da Revista Cláudia, da Editora Abril, mas depois de alguns anos sendo repetida aqui em casa, adaptei-a ao meu modo – que transcrevo a seguir:





Findo o almoço, meu coração está feliz. Minha mãe e meus filhos retomam suas atividades, a louça escorre na pia... É hora de escorregar para dentro de um livro...


 Beijo&Carinho,
 Jussara

Você viu o passarinho azul?



Minha bisavó era o tipo de avó aconchegante que hoje não se encontra mais. Era baixinha e gorda, de cabelos curtos e brancos, e usava vestidinhos simples e retos que variavam apenas na estampa, sempre a mesma nas minhas lembranças. 


Na época em que vivemos na mesma casa eu amava passar horas em sua companhia a ouvir as histórias de assombrações e castelos, que ela contava tão bem, além de suas memórias de infância que pareciam, aos meus ouvidos de menina dos anos 70, como vindas de outro século (praticamente, pois ela nasceu em fins do século XIX), de um tempo sem automóveis, sem luz elétrica ou telefone. Eram histórias recheadas de cavalos, carroças, estradas poeirentas, bonecas feitas de trapos e sabugos de milho e namoros arranjados.


Vinda desse tempo, minha bisavó era analfabeta, dona, porém, de uma sabedoria de chás e rezas e de um rosto bonito que eu admirava, agarrada como era a ela, feliz de analisar as manchas de idade em seus braços e a finura de sua pele.


Talvez seja esse encantamento que eu sentia pela beleza anciã de minha bisa que garanta que hoje eu não tema o envelhecimento e encare com a naturalidade possível – num mundo que pensa o contrário – o corpo que se/me transforma no colo aconchegante que eu mesma pretendo ter para os meus netos.
Mais de uma vez, chegando eu feliz da escola ou de alguma brincadeira, ela me perguntou eu vira o passarinho azul...


Do estranhamento inicial com a pergunta passei a entender, com o tempo, que o passarinho azul simbolizava leveza e alegria, bem como a liberdade, cheia possibilidades, de minha vida que apenas começava. Muito mais tarde soube que ver (realmente) um passarinho azul é considerado um presságio de sorte, mas no tempo de minha bisavó o passarinho azul era só uma imagem da felicidade que era tão naturalmente minha.



As imagens que ilustram este post me foram cedidas gentilmente por Leonor Machado, dona do blog “A arte como ofício” (que recomendo) – recheado com seus desenhos, aquarelas e seu olhar artístico e poético sobre flores e paisagens. Os pássaros são um tema recorrente em sua obra. Leonor é professora aposentada e se confessa apaixonada por “todas as formas de arte”. Vive em Matosinhos (cidade em que também viveu Florbela Espanca) bem ao lado do Porto, em Portugal.


Beijo&Carinho,
Jussara


“Os meninos da Rua Paulo” – valores universais



O que garante a universalidade e/ou a atemporalidade de uma obra? “O enfoque que dá às questões humanas” seria uma boa resposta, uma vez que as emoções humanas pertencem ao homem de sempre e de qualquer lugar do mundo.


As questões metafísicas, portanto, e seus temas cruciais sobre a vida, valores, a existência ou não de Deus, por exemplo, assim como os sentimentos de medo,  amor, esperança, etc. – que independentemente dos avanços tecnológicos continuam a habitar a mente e o coração do homem –  costumam imprimir ao texto um caráter de universalidade na medida em que refletem assuntos que não se prendem a um lugar somente, nem a uma só época, podendo, desse modo, retratar simultaneamente o ser humano de hoje e o de cem anos atrás.


Os meninos da Rua Paulo, clássico do escritor húngaro Ferenc Molnár, parece ser um bom exemplo disso. Além da qualidade literária da história dos meninos que defendem o “sagrado grund” – um terreno baldio em que costumam jogar péla – é justamente o caráter universal da obra que lhe garante o enorme público espalhado pelo mundo ao longo de vááááárias décadas.
A novela juvenil gira em torno de uma batalha entre dois grupos rivais: os garotos pertencentes à sociedade do Betume, que se reúnem no grund para as suas brincadeiras, e um grupo de valentões que pretende se apropriar do terreno expulsando-os dali.
A batalha, que tem por pano de fundo a Budapeste do início do século XX, levará os meninos a vivenciarem valores, honra,  perda, amizade, união... de modo que o que parece apenas uma brincadeira de criança transforma-se num acontecimento capaz de amadurecer os meninos e prepará-los para a vida, o que faz com que a obra não se prenda apenas ao público juvenil, podendo interessar também aos adultos, especialmente aqueles que admiram Oliver Twist e Tom Sawyer. É ao lado desses famosos personagens que se situa Ernesto Nemecsek, o “soldado raso” da batalha entre os dois grupos, no ranking dos heróis da literatura juvenil.


Com mais de um milhão de leitores e oitocentas reimpressões só no Brasil, Os meninos da Rua Paulo é um best-seller que inspirou cineastas por todo o mundo e gerou incontáveis adaptações para o teatro e recomendações de leitura em sala de aula.


As imagens utilizadas neste post pertencem a Isabelle Fontrin. São fotografias de esculturas em bronze criadas por Péter Szanyl. Em seu blog de viagens “Lugares by Isabelle”, a autora explica que as esculturas se encontram em frente à escola primária da Rua Práter, em Budapeste e representam, em homenagem à novela mais famosa da literatura húngara, uma cena de Os meninos da Rua Paulo em que o grupo rival observa os garotos da rua “Pál” a jogarem bolinhas de gude (jogo inventado pelos húngaros).
O conjunto de esculturas se harmoniza com o ambiente, explica Isabelle, sugerindo perfeitamente o clima estudantil do início do século XX: além da “extraordinária beleza”, homenageia os “sentimentos simples da vida” e, simultaneamente, revela o “rigor científico da pesquisa do escultor”.



Beijo&Carinho,

Jussara


Poema sobre a poesia e sobre os poetas



No Dia Mundial da Poesia ofereço o poema abaixo, de minha autoria, a todos que a ela, Poesia - amante exigente, complicada e linda - se dedicam numa entrega sem fim:



BATISMO DE POETA

                    Jussara Neves Rezende

  
Que difícil ser poeta
e ainda original
no país de João Cabral,
de Vinícius e Cecília,
dos Andrade e de Bandeira.

Que tarefa a de inovar
o que tanto já disseram
Cruz e Souza e Bilac,
Castro Alves e Azevedo
e também Gonçalves Dias...

Que dureza que é na terra
de Marília, a pastora,
fazer versos que consigam
se igualar aos de Dirceu,
aos de Cláudio ou de Peixoto.

Que trabalho ser poeta
quando Gregório de Matos
foi primeiro e tão bem...
No que ele disse faltou
algo que possa eu dizer?

Que impossível ser poeta
e fazer versos na língua
de Camões e de Pessoa!
De Pessanha e de Antero,
de Garret e de Bocage.

Ainda mais quando sinto
que meus versos querem ser
alguma coisa bem simples:
um cantar de trovador
ou da moça, a cantiga.

Ainda mais quando sei
que há pedras no caminho
que não se afastam jamais,
que há temas que se repetem
pelo que contém de eterno.

Ainda mais quando existe
tanta coisa a descobrir!
O lado pra o qual não fui,
o sim que disse, ou o não,
e o que faltou dizer...

Quando é tão transitória
a vida que a gente tem!
Tempo imenso pra saudade,
pro amor, insuficiente,
e é preciso prosseguir...

Quando não se alcança a forma
perfeita que se sonhou,
ou quando da luta foge,
os versos que querem ser
retratos apenas da alma...

Que loucura ser poeta
e caminhar no impossível,
usar versos para dizerem
o que é difícil dizer
e só assim ser feliz...

Que destino ser poeta!
De batismo receber
a herança desses nomes
que antes de mim disseram
o que eu queria dizer.





Google Imagens


Beijo&Carinho,

Jussara