Ninho de pássaro



Embora eu tenha espalhado casinhas de pássaros pelas varandas e pelo quintal de minha casa, nunca consegui que um passarinho quisesse nelas morar.
Mais sucesso obtive com um comedouro para aves – frequentado por canários da terra, bigodinhos, coleiros, rolinhas e pardais – e com um bebedouro de água doce (diariamente trocada) procurado por caga sebos e colibris.
Alegra-me o coração – de uma maneira que acho difícil explicar – saber que esses pássaros estão livres para ir onde quiserem, mas que procuram pelo comedouro, logo pela manhã, certos de ali encontrarem nova porção de quirela de milho. Sua presença é tão certa que chego a acreditar que de cima das árvores, para além do meu muro, eles me espreitam e aguardam para virem em bando tão logo eu renove a bocada do dia.
Numa dessas manhãs, enquanto trocava a água dos beija-flores, descobri no canto de uma viga do telhadinho do quintal, um ninho de rolinha de onde a passarinha me encarava compenetrada.


Chovia a cântaros para além do telhado, mas sob ele a rolinha repousava enquanto no comedouro o macho buscava a refeição. Momento de puro encantamento a partir do qual passei a controlar até mesmo minha respiração ao sair ali, tal o medo de assustar a jovem mãe sobre os ovinhos.
Hoje, dia ensolarado, aviso com cuidado à passarinha que irei fotografá-la para perpetuar a alegria de tê-la ali. Ela se entrega ao click, mesmo sem concordar muito, o olhar ressabiado em meus gestos. Os meus olhos desvio logo, para não perturbá-la, e entrego-me à matutina tarefa de alimentar pássaros e aguardar o que será.



Beijo&Carinho,

Jussara


Marcador de páginas artesanal



Quando publiquei aqui um texto sobre o marcador de páginas que criei a partir do rosto de uma boneca de porcelana quebrada, a Edméia deixou um comentário no qual me oferecia um marcador criado por ela. Claro que lhe escrevi imediatamente garantindo meu interesse pelo presente, (risos).
Daí, ao voltar de viagem, no início do ano, me deparo com aqueles avisos de chegada dizendo que eu teria que procurar o “objeto” na agência X dos Correios ou ele seria devolvido ao remetente. Pensei imediatamente nuns livros que eu havia encomendado de uma livraria no Rio Grande do Sul e tratei de ir à procura. O envelope era muito leve, entretanto, e seu conteúdo (surpresa!) era o marcador de livros oferecido pela Edméia!
Artesã mineira (de Vespasiano), Edméia tem se especializado na criação de uma arte voltada para os deficientes visuais a fim de que, pelo toque, esses possam “ver” o trabalho artesanal/artístico. Além disso, a artesã pretende – especialmente com os marcadores de páginas – provocar uma reflexão sobre a questão do negro no Brasil, desde a chegada dos navios negreiros (quando os negros chegavam a ser marcados com ferro) até os dias atuais, momento em que o negro se conscientiza da necessidade de educar-se para realmente se libertar e marcar – agora de uma nova maneira  a nossa História:
“Só enfiados em meio às páginas dos livros, sejam eles de que temas forem, é que vamos nos libertar e marcar a História”, afirma Edméia, “desta vez com histórias bem sucedidas e vitoriosas. Não sem lutas, pois sem luta não há vitória”.
O marcador Eleassim, portanto, como a artesã o batizou, nasce negro e cheio de “atitude”. Aqui em casa já marca o início de minha nova leitura:


O artesanato cultural e pedagógico desenvolvido pela Edméia pode ser encontrado pelo Facebook sob a logomarca (mineiríssima) da artesã: “Ó Pocevê”*. Além dos marcadores você encontrará por lá brincos, chaveiros, bonecas e essas charmosas bonecas gorduchas que eu, particularmente, amei!



*Ó Pocevê – tradução para não mineiros: “Olhe para você ver”.



Beijo&Carinho,



Jussara


Flores sobre a mesa



Uma das lições que aprendi com minha mãe – dessas que se aprendem pelo gesto, sem que seja necessário que alguém faça grande ou nenhuma preleção sobre o assunto – foi a de colocar flores sobre a mesa.



Minha mãe sempre gostou de plantas e as cultivou. Por isso esteve sempre cercada de flores, especialmente orquídeas, rosas e hortênsias. Meu pai gostava de rosas (sobretudo daquelas de cor vermelha beeeem escura, conhecidas como “Príncipe Negro”) e por isso as plantava. Com o tempo minha mãe aprendeu e assumiu a tarefa de podá-las e replantá-las, o que ainda hoje faz, decifrando épocas e luas.




Em razão disso, mesmo em épocas difíceis, de desemprego, perda e dor, sempre houve flores sobre a mesa de meus pais.




Não é de estranhar, portanto, que eu associe flores sobre a mesa com aconchego, cuidado, alegria. Quando a tristeza me assalta (e não tenho flores em casa) saio para comprá-las ou ligo para a floricultura e peço que me enviem, ou colho uma braçada de manjericão (ou hortelã), coloco num vaso e deixo que as folhinhas cheirosas perfumem minha casa.



Devo ter pelo menos uns 3 arranjos de flores artificiais – e gosto deles por mais que essas flores sejam criticadas – mas as naturais alegram meu coração.



Essa alegria, bem como o gesto de colocar flores sobre a mesa, sejam quais forem as circunstâncias, é o que desejo para mim e para você no próximo ano.





Feliz 2016!

Beijo&Carinho,

Jussara









Publicado no último dia 09 de dezembro, o segundo volume da Revista Voz das Montanhas, da Academia Machadense de Letras, traz um artigo meu, que aqui compartilho.
Na linha de textos anteriores aqui publicados*, este "Conselhos a um jovem poeta", tal qual os artigos mencionados que o precederam, inspira-se no título de Rainer Maria Rilke - Cartas a um jovem poeta - e nasce como tentativa de resposta às perguntas que continuamente me fazem sobre como escrever um poema, como melhorá-lo, quando publicá-lo:



 
 


Se você está achegando agora e não me conhece, esta página da Revista me apresenta:



Páginas da Revista Voz das Montanhas transcritas aqui: 12, 13 e 47.


*Textos anteriores sobre o mesmo assunto:

Conselhos ao poeta iniciante
Conselhos a um poeta


Beijo&Carinho,

Jussara